A farra dos jatinhos ficou internacional
Por Alexandre Garcia
Vamos falar mais uma vez desses aviõezinhos executivos com os quais empresários transportam autoridades dos três poderes. É ministro que vai de carona, ministro do Supremo que voa no avião do Vorcaro, e presidente da Câmara que pega carona no avião de um sujeito ligado ao “jogo do tigrinho”. E foi para ir à Las Vegas do Caribe, a Sint Maarten, uma ilha cuja metade é holandesa e tem três grandes cassinos.
A bagagem da turma, além de Hugo Motta, foram o senador Ciro Nogueira e os deputados Dr. Luizinho e Isnaldo Bulhões, estava toda escrita em um bilhete; além de tudo, há as imagens. O bilhete dizia que o auditor-fiscal Marco Antônio Canella (que já está respondendo a inquérito por causa disso) liberou todas as malas e bolsas que tinham eletrônicos e garrafas de belos vinhos, uísques e outras bebidas, certamente.
O presidente da Câmara, Hugo Motta, disse que fez tudo de acordo com a lei. Na verdade, passaram por cima da lei; todos os brasileiros estão sujeitos a terem as malas abertas, a passar pelo raio-X, mas tudo isso foi dispensado. O jatinho já desceu em um lugar conveniente; não foi Guarulhos, nem Congonhas, nem Galeão, mas o aeroporto de São Roque, provavelmente já com essa intenção, depois de terem passado uma boa estada lá na ilha dos cassinos.
Pela lista de passageiros, as respectivas mulheres foram junto. Que boa vida! Podemos dizer isso porque a necessidade de decoro, de postura e de bom exemplo se multiplica quando alguém está representando o povo e tem o poder de fazer leis, de mudar leis, de cancelar leis, de fiscalizar os outros. Eles precisam ser fiscalizados também.
Certamente na qualidade de mandante. Nós todos somos mandantes, temos de colocar isso na cabeça na hora de votar. Nós os sustentamos com nossos impostos, nós os nomeamos com o nosso voto, e nós devemos fiscalizá-los. Devemos pensar um milhão de vezes antes de escolher o candidato, para não acontecer que pessoas como essas sejam eleitas por milhares de pessoas e não estejam à altura desses eleitores porque não se dão conta do que é decoro, do que é postura, do que é vida ética, civilizada.
Isso não acontece na Europa. Se acontece, a punição é severa. No Japão é ainda mais rígido: o próprio sujeito, para não envergonhar a família, pratica aquilo que os japoneses chamam de harakiri. Temos de registrar isso porque não é só o jato do sujeito do tigrinho; temos o jatinho do Vorcaro também. Malu Gaspar está cansada de mostrar como funcionam essas combinações: uma hora é Dias Toffoli, outra hora é Alexandre de Moraes. E esses favores caem muito mal.
No momento em que se aceita um presente estando em um cargo público, você fica devedor e precisa retribuir o favor a esse doador bondoso, e vice-versa. A relação tem que respeitosa, e profissional, pode ser até amistosa, mas jamais pode ser íntima, com trocas de presentes ou favores. Não funciona. Há uma coisa chamada ética, necessária para que as coisas corram de modo normal.