Oportunistas e mentirosos querem transformar Nossa Senhora Aparecida em cabo eleitoral
Por Marcio Antonio Campos
Nossa Senhora Aparecida conseguiu mais um milagre: fez até militante socialista, daqueles que desprezam tudo o que a Igreja é e tudo o que a Igreja prega, sair em defesa da Mãe de Jesus e exaltá-la como parte da identidade nacional. Mas, infelizmente, não é um caso de conversão em massa, e sim de cálculo político puro e simples, misturado com desonestidade. Falamos, claro, da boataria sobre a tal tentativa de tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil.
Parece que não foi a jornalista da GloboNews quem começou tudo (segundo a campanha de Flávio Bolsonaro, foi o cara da Dilma Bolada), mas a enorme difusão da mentira ocorreu graças a ela. E não pode se dizer que é irresponsabilidade, porque irresponsabilidade é fazer alguma coisa sem ter muita consciência do que está fazendo ou das consequências que aquilo terá. Toda vez que surge qualquer mensagem alarmista sobre alguma lei, projeto de lei, decreto ou medida provisória que determina algum absurdo, a primeira reação é perguntar “qual é o número?” Todo projeto de lei, todo decreto, toda MP tem número, e o texto pode ser verificado no site da Câmara, do Senado ou da Presidência da República. A jornalista não perguntou o básico; passou adiante uma informação mentirosa, que foi retificada tarde da noite, mas àquela altura o estrago já estava feito. Por que não fez o básico? Se esqueceu, ela que desculpe, mas não tem capacidade para estar no principal canal de notícias do país.
Mas então, qual é o número? É 2.623/07. Prevê isso mesmo que andaram divulgando, mas está arquivado desde 2008. Foi rejeitado na Comissão de Educação da Câmara, e nunca foi desarquivado. Fim da história. O mais incrível é que mesmo assim ainda tem site de esquerda insistindo em manter o caso rodando, por exemplo dizendo que o autor do projeto foi assessor de Jair Bolsonaro, apoia a candidata presidencial de Flávio Bolsonaro e é candidato a deputado federal. Ou, ainda, usando uma fala do candidato do PL, que prometeu decretar que o Brasil “pertence a Jesus Cristo”, como sinal de que ele pretenderia “rebaixar” Nossa Senhora Aparecida.
É realmente coincidência que essa história sem fundamento algum tenha sido requentada dias depois de Lula dizer uma enorme besteira sobre o celibato sacerdotal e o sacerdócio exclusivamente masculino na Igreja Católica?
Não sejamos católicos ingênuos: existe, sim, uma ala radical do evangelicalismo brasileiro que tem uma profunda aversão pela Igreja, pelos católicos e por tudo que nos é caro, Nossa Senhora Aparecida inclusive; ficou muito famoso o caso da provocação de um cantor gospel na Marcha para Jesus de 2019, em São Paulo, evento que, ao menos na capital paulista, costuma acontecer no mesmo dia do nosso Corpus Christi, quando saímos às ruas em procissão com o Cristo na Eucaristia. A representação parlamentar dessa ala tem crescido desde aquele distante 2008, quando o PL 2.623 foi arquivado. E, se dependesse única e exclusivamente dessa ala, não poedemos duvidar nadinha que tentassem mais uma vez retirar o reconhecimento público da Virgem Aparecida, porque padroeira do Brasil ela continuaria sendo, não é o Estado quem decide isso. Mas o que temos hoje não passa de um projeto arquivado.
E pensem: é realmente coincidência que essa história sem fundamento algum e que já tinha sido usada em 2018, merecendo até checagem dos grandes sites de notícias, tenha sido requentada dias depois de Lula dizer uma enorme besteira, essa sim muito real, sobre o celibato sacerdotal e o sacerdócio exclusivamente masculino na Igreja Católica? Ninguém realmente desconfia de todas essas manifestações de amor pela Mãe Aparecida vinda de gente que passa a vida atacando a Igreja Católica e a sua doutrina? De um governo que passou quatro anos aproveitando toda brecha possível para ampliar o acesso ao aborto sem precisar mudar a lei? Qualquer eleitor com o desconfiômetro minimamente regulado, e que não esteja anestesiado por idolatria político-partidária, será capaz de ver (e repudiar) a combinação de mentira e oportunismo eleitoreiro.
Mas não é só com esse pessoal que precisamos estar atentos. Muito padre e bispo saiu rapidamente em defesa de Nossa Senhora Aparecida nos últimos dias. Mas, se esses mesmos padres e bispos que defendem a Mãe de Jesus diante de uma ameaça falsa ficaram bem caladinhos enquanto Lula realmente atacava a doutrina católica sobre o sacerdócio ao qual eles foram chamados, fora as outras afirmações recentes que beiram a blasfêmia (como dizer que o vermelho do PT é do “sangue de Cristo”, e não do socialismo que o partido defende desde a fundação; ou quando Janja disse que Lula é o “verdadeiro ungido de Deus”), Mas mesmo assim há uma chance razoável de eles estarem “fazendo o L”, selecionando sua indignação de acordo com seu candidato de estimação.