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Para Flávio, era sair do Brasil ou ter o mesmo destino de seu pai
Por Alexandre Garcia

O ex-ministro do STF Marco Aurélio Mello, o único que se insurgiu contra o que ele chamou de “inquérito do fim do mundo”, que desde 2019 promove arbítrios, ilegalidades e inconstitucionalidades por meio das quais muita gente foi presa, bloqueada, injustiçada e perseguida – disse que a atitude de Flávio Bolsonaro foi de “autodefesa”. Autodefesa preventiva. Sete minutos depois de o resultado da eleição ser confirmado, a Polícia Federal já estava pedindo a retirada dos passaportes, e Alexandre de Moraes tomou a decisão. O ministro estava calado, esperando o resultado da eleição; se Flávio vencesse, provavelmente continuaria calado; como não venceu, Moraes imediatamente mandou tirar os passaportes do senador, tanto que Flávio entrou nos Estados Unidos com um passaporte italiano.
Flávio agradeceu aos governos argentino e norte-americano pela operação rápida e bem-sucedida. Na terça-feira, às 22h50, a família estava atravessando a Ponte Tancredo Neves, sobre o Rio Iguaçu, entrando em Puerto Iguazu e sendo levada pela polícia argentina para o embarque, essa foi a ajuda do governo de Javier Milei. Fez uma parada em Guayaquil, no Equador, e desembarcou em Miami.
As pessoas se perguntam por que Flávio fez isso. Mas há boas razões. O pai dele foi para os Estados Unidos em 30 de dezembro de 2022, voltou em 30 de março de 2023 e acabou preso e condenado. E 27 anos não são pouco, é pena para quem matou cinco ou seis; mas Jair Bolsonaro não matou ninguém, nem sequer deu golpe, e ainda assim está preso. Flávio viu isso de perto; também viu como a Débora do Batom foi tratada, simplesmente por fazer uma pichação que foi removida imediatamente; e viu tantos outros casos que todos conhecem. Então, ele imaginou que seria o próximo da fila.
Quando houve aquela ordem de Cristiano Zanin, Flávio deve ter ficado com o pé atrás; por duas horas ficou tudo parado, e depois veio o resultado. E em seguida veio a ordem de entregar os passaportes. Primeiro, a ordem do ex-advogado de Lula; depois, a ordem do amigo de Lula, porque é isso que Moraes é, a ponto de ter promovido em sua casa um encontro de Lula com Davi Alcolumbre. E Lula está apoiando a reeleição de Alcolumbre para que, na mesma cadeira de presidente do Senado, ele continue bloqueando os pedidos de impeachment de Moraes. É tudo um círculo vicioso.
Enfim, ninguém pode criticar, ninguém pode desafiar o governo ou o STF. É uma experiência de controle da população brasileira, assim como aconteceu na pandemia, com a colaboração da televisão, que mostrava as covas para deixar todos paralisados pelo terror: “essas covas estão esperando vocês se não se comportarem, se não obedecerem às autoridades”. Ninguém mais saiu para a rua, a despeito das garantias constitucionais do direito de ir e vir, da liberdade de reunião, do acesso ao trabalho, todas elas desrespeitadas. Foram medidas desnecessárias, como ficou provado agora. E nunca deixo de lembrar que proibiram o tratamento, disseram que não havia tratamento, e milhares morreram por causa dessa crueldade terrível. Chegamos a ver o tratamento dando certo, aplicado rotineiramente, em poucos dias e quase de graça.
Flávio lançou-se como um novo Edmundo González. Vocês se lembram: González foi o candidato oposicionista que “perdeu” para Nicolás Maduro na Venezuela, em 2024, em uma eleição que foi fraudada: Maduro estava perdendo feio, mandou parar a contagem, e quando voltou ele estava na frente. Para não ser preso, González teve de ir para a Espanha. E a nota de Flávio começava se dirigindo à comunidade internacional, declarando-se presidente eleito (esse trecho ele retirou depois), denunciando fraude e dizendo que vai continuar a trabalhar pela democracia no Brasil.
Já tivemos tantos exilados e autoexilados na ditadura Vargas, no período militar e agora temos de novo. E não é apenas Flávio: são muitos, na Argentina, na Espanha, nos Estados Unidos, que estão em busca da liberdade de expressão e esperando que a democracia retorne.