A intoxicação por anestésicos locais (AL) é uma complicação relacionada à anestesia proveniente principalmente da injeção de altas concentrações e volumes de um determinado anestésico local, como também pela injeção intravascular inadvertida durante a realização de um bloqueio anestésico.
Os bloqueios anestésicos regionais mais relacionados à intoxicação por anestésicos locais, são aqueles onde a vascularização da região é bastante rica ou a região corresponde à localização de grandes vasos, como no caso de bloqueios peridurais ou bloqueios do plexo braquial.
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A absorção generosa de anestésico local ou injeção intravascular inadvertida pode levar a complicações gravíssimas, dependendo do tipo de anestésico utilizado e do volume injetado, podendo evoluir para parada cardiorrespiratória e óbito. Além de causas técnicas, existem pacientes que são mais suscetíveis à intoxicação por AL, como, por exemplo, hepatopatas, pacientes em acidose metabólica, doenças cardíacas pré-existentes como arritmias, infarto e distúrbios de condução, e extremos de idade.
A incidência é de um para cada mil pacientes e está bastante relacionada à falta de profilaxia e ao não seguimento de protocolos de segurança durante o procedimento.

Itens de segurança para realização de um bloqueio regional
- Monitorização constante e adequada para cada procedimento;
- Uso de anestésicos mais seguros como a ropivacaína;
- Uso de adrenalina quando não contraindicado;
- Uso de concentrações e volumes baixos;
- Aspiração intermitente durante a injeção;
- Contato verbal e visual constante com o paciente durante a injeção do anestésico;
- Equipe devidamente treinada para a realização do bloqueio;
- Bloqueio realizado apenas por profissionais anestesistas.
Atualmente, o desenvolvimento de técnicas adjuvantes como o uso de ultrassom, o uso de cateter e a existência de monitorização complexa utilizada durante o procedimento, fizeram diminuir de forma significativa, a incidência dessa complicação.
A intoxicação por AL apresenta vários sinais e sintomas especialmente a nível do sistema nervoso e cardiovascular. Gosto metálico na boca, desorientação, zumbido, fala arrastada e convulsão são alguns dos sinais e sintomas nervosos encontrados em pacientes. Arritmias, distúrbios de condução, alterações da pressão arterial e parada cardíaca são sintomas cardiovasculares causados por intoxicação por AL.
A parada cardíaca aconselhada da intoxicação por anestésicos locais tem uma característica peculiar, e se dá pela impregnação das fibras miocárdicas, fazendo com que sua duração seja muito prolongada, podendo chegar até uma hora de duração, portanto em casos de parada cardíaca derivada dessa complicação, as manobras de ressurreição devem ser mantidas, mesmo sem resposta por um período aproximado de uma hora initerruptamente.
Uma das opções terapêuticas, em caso de parada cardíaca por intoxicação por anestésicos locais, além do protocolo de manobra de ressuscitação cardiovascular, é o uso concomitante da emulsão lipídica.
Os anestésicos locais são lipossolúveis, e quanto maior a sua lipossolubilidade, maior a sua ligação com os tecidos e maior a sua toxicidade. A emulsão lipídica utilizada nesses casos serve como um meio lipídico de grande volume que carrega uma droga para fora dos tecidos por ela impregnados. A emulsão lipídica por ser um meio altamente concentrado com lipídios, atua como um compartimento capaz de coletar essas drogas lipossolúveis, atraindo-as para seu complexo lipofílico e proporcionando sua biodisponibilidade.
Uma outra função secundária da emulsão lipídica nesses casos é a capacidade que ela tem de aumentar o substrato energético do miocárdio e também de aumentar o cálcio intracelular, melhorando a função dos miócitos a nível cardíaco.
O tratamento com o uso de emulsão lipídica a 20% deve ser feito concomitantemente às manobras de ressuscitação cardiopulmonar, sendo que estas devem ser mantidas continuamente até o pronto reestabelecimento cardiovascular. É contraindicado em casos de pancreatite aguda, IAM, hepatopatias e sepse grave, porém seu custo-benefício nesses casos deve ser avaliado.
A emulsão lipídica pode ser administrada via acesso periférico, se possível de grosso calibre. A dose inicial de ataque é de 1,5 ml/Kg EV em bolus, durante 1 minuto. Após a dose de ataque inicie a manutenção com uma infusão de 0,25 ml/Kg/min. Caso não haja resposta após 5 minutos, repita a dose de ataque por duas vezes no intervalo de cinco minutos cada e aumente a manutenção para 0,5 ml/Kg/min. A dose inicial em bolus pode ser repetida, caso não haja resposta eficaz, a cada 5 minutos.
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É que recomendado não ultrapasse a dose máxima de 10 ml/Kg ou 400 ml em 20 minutos.
O tratamento descrito acima é o protocolo recomendado pela Sociedade Americana de Anestesia Regional e Medicina da Dor nos casos de colapso cardiovascular por intoxicação por anestésicos locais.
Algumas complicações relacionadas ao uso desta técnica incluem pancreatite aguda, embolia gordurosa, hiperlipidemia, alterações de coagulação e lesão hepatoesplênica.
A prevenção ainda é o melhor tratamento para esses casos.
Vale lembrar que a intoxicação por AL pode ocorrer sempre que se utilizar essa técnica anestésica, mesmo nas condições adequadas para sua realização.
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Autor
Graduação em Medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) ⦁ Pós-Graduação em Anestesiologia pelo Ministério da Educação (MEC) ⦁ Pós-Graduação em Anestesiologia pelo Centro de Especialização e Treinamento da Sociedade Brasileira de Anestesiologia (CET/SBA) ⦁ Membro da Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA) ⦁ Ênfase em cirurgias de trauma e emergência, obstetrícia, plástica estética reconstrutiva e reparadora e procedimentos endoscópicos ⦁ Experiência em traumas e cirurgias de emergência de grande porte, como ortopedia, vascular e neurocirurgia ⦁ Experiência em treinamento acadêmica e liderança de grupos em ambiente cirúrgico hospitalar ⦁ Orientadora acadêmica junto à classe de residentes em Anestesiologia ⦁ Orientadora e auxiliar em palestras regionais e internacionais na área de Anestesiologia.
- Neal JM, Barrington MJ, Fettiplace MR, Gitman M, Memtsoudis SG, Mörwald EE, Rubin DS, Weinberg G. A Terceira Sociedade Americana de Anestesia Regional e Medicina da Dor Consultoria Prática sobre Toxicidade Sistêmica de Anestésico Local: Resumo Executivo 2017. Reg Anesth Pain Med . fevereiro de 2018;43(2):113-123.