De boas intenções o inferno anda meio vazio.
O país está fedendo. O mau cheiro vem de todos os lados: da falta de tratamento de esgoto, da pólvora das armas de fogo e, principalmente, do enxofre exalado pelos capetas que habitam os gabinetes de Brasília. Os partidos políticos, em estado de decomposição, também exalam mau cheiro. Se alguma esperança nos resta, não são essas carcaças desprezíveis em que se transformaram quase todos os partidos. Resta um fio de esperança em congressistas que, até prova em contrário, inspiram alguma confiança e comprometimento com as causas públicas, e não com ideologias e o fisiologismo.
Não precisa ser um estudioso da vida parlamentar, para formar opinião a respeito do comportamento de parlamentares mais ou menos destacados na vida política nacional. É com base em observação e com boa dose de intuição que aparecem alguns poucos nomes que poderiam formar uma frente suprapartidária capaz de empolgar a sociedade civil num esforço de superação da atual crise política e de construção de uma sociedade efetivamente democrática. Para tanto, seria necessário que essas lideranças superassem suas convicções ideológicas mais radicais, se reconhecessem como dignas de respeito e convergissem para uma posição efetivamente de centro e democrática, cuja prioridade seria o combate sistemático aos privilégios e ao domínio de oligarquias e organizações criminosas.
Baseia-se, tão simplesmente, na percepção da coerência dos discursos e das condutas mais claramente éticas. Alguns, mais à direita, deveriam abrir mão, por exemplo, da insistência em armar uma população que age mais pelo instinto do que pela racionalidade e da insistência em temas morais afetos a minorias que só servem para desviar o foco de questões políticas centrais, além da visão excessivamente truculenta e autoritária na solução dos problemas nacionais. A outros, mais à esquerda, sugeriria que retirassem seu eventual apoio aos devaneios da chamada “ideologia de gênero”, da provocação contida em temas ligados à educação infantil e à vida cultural e, claro, à apologia do uso da violência na promoção de mudanças sociais. A ambos os extremos, sugeriria a imediata suspensão das acusações e tentativas de censura aos meios de comunicação, que, mesmo passíveis de críticas, são a garantia maior do funcionamento das instituições democráticas.
Apenas para ilustrar este argumento – e acreditando no espírito público de parlamentares que, mesmo situados em pontos opostos do espectro político-ideológico, possam abrir mão de suas convicções e se entender sobre questões vitais para a sobrevivência da nação e de suas instituições democráticas –, não se vê como impossível uma aliança suprapartidária entre, por exemplo, Álvaro Dias, Ana Amélia, Randolfe Rodrigues, Tasso Jereissati, Cristovam Buarque e mais um punhado de senadores, além de Chico Alencar, Carlos Sampaio, Luiza Erundina, Mara Gabrilli, Júlio Delgado, Alessandro Molon, Jarbas Vasconcelos e, por que não, o senador Magno Malta e o deputado Jair Bolsonaro. Mas isto seria apenas um bem-intencionado delírio.
Fonte: Por Marco Aurelio