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A cirrose hepática descompensada é uma condição exigida e frequentemente presente nas unidades de terapia intensiva. Trata-se de doença multissistêmica, englobando falência de outros órgãos e sistemas, além de imunodeficiência e desnutrição.

Dessa forma, é importante a revisão desse tema, a fim de melhorar o atendimento desses pacientes.

Veja também: Quando indicar e quando não indicar a albumina?

Médico explicando ao paciente sobre uma cirrose hepática descompensada através de reprodução em 3D do fígado

Epidemiologia, etiologia e fisiopatologia

A cirrose hepática é o estágio mais avançado da fibrose hepática, resultante de lesão crônica ao fígado. Essa condição curso com imunidade hepática e hipertensão portal. A cirrose hepática descompensada cursa com complicações, como: hemorragia digestiva alta varicosa, ascite, encefalopatia hepática, icterícia e ACLF (insuficiência hepática aguda sobre crônica).

Trata-se de causa frequente de admissão em leito de terapia intensiva, estando associada a taxas de mortalidade em torno de 50%.

As etiologias da cirrose hepática são variáveis ​​e estão dispostas na tabela a seguir:

Droga Álcool
Infeccioso Hepatita B e C
Metabólico Obesidade, diabetes (NASH)
Genético Doença de Wilson, hemocromatose hereditária, deficiência de alfa-1-antitripsina
Autoimune Hepatite autoimune, colangite biliar primária, colangite esclerosante primária
Vascular Síndrome de Budd-Chiari
Biliar Cirrose biliar secundária

Na presença de um paciente com cirrose hepática descompensada, deve-se buscar fatores desencadeantes, tais como: progressão da doença hepática de base, hipotensão, infecção, carcinoma hepatocelular, trombose de veia porta.

A cirrose hepática descompensada cursa com disfunção de características de fatores de coagulação e imunoglobulinas, predispondo a coagulopatias e favorecendo o surgimento de infecções.

O portal de hipertensão pode cursar com complicações como:

  • Varizes esofagogástricas e hemorragia digestiva alta varicosa;
  • Ascite e peritonite bacteriana espontânea (PBE);
  • Disfunção circulatória, que pode predispor à síndrome hepatorrenal;
  • Dificuldade na eliminação de metabólitos tóxicos, favorecendo o surgimento de encefalopatia hepática.

Diante de um paciente com doença hepática crônica, torna-se necessária a solicitação de exames para avaliar a função hepática e a provável etiologia do quadro.

ETIOLOGIA
  • Vírus: hepatites B, C, HIV
  • Autoimune: FAN, anti-músculo liso, antimitocôndria, imunoglobulinas IgG e IgM, eletroforese de proteínas séricas
  • Bioquímica: cinética de ferro + ferritina, ceruloplasmina e cobre, dosagem de alfa-1 antitripsina
  • Exames genéticos: Pesquisa de mutações hemocromatose, def. alfa-1 antitripsina ou doença de Wilson, caso triagem alterada
MONITORAMENTO/FUNÇÃO HEPÁTICA
  • Albumina, TAP+INR, bilirrubinas totais e frações
  • Hemograma completo com contagem de plaquetas
  • Ureia, creatinina, eletrólitos
RASTREIO DE DOENÇA HEPÁTICA AVANÇADA
  • Elastografia hepática
  • Ultrassonografia de abdome com doppler porta
  • Endoscopia digestiva alta
  • Biópsia hepática (quando dúvida diagnóstica)
RASTREIO DE CARCINOMA HEPATOCELULAR
  • Dosagem de alfafetoproteína + ultrassom de abdome de seis em seis meses
  • Tomografia ou ressonância com estudo trifásico, presença de nódulos hepáticos

O uso de escores prognósticos é de grande valia a fim de estimar gravidade, sendo os mais usados:

  • MELD (cálculo que leva em conta valores de bilirrubina, INR e creatinina);
  • MELD-NA (cálculo que leva em conta valores de bilirrubina, INR, creatinina e sódio);
  • Escore de Child-Pugh: leva em conta valores de bilirrubina, TAP, albumina, além da presença de ascite e encefalopatia hepática.

Manejo das complicações

Hemorragia digestiva alta varicosa (HDAV)

  • Acomete cerca de 25–40% dos pacientes cirróticos;
  • Taxa de mortalidade de 10–30% a cada episódio de HDAv;
  • Medidas gerais:
    • Ressuscitação volêmica solução com cristaloide, oscilação PAM> 65 mmHg;
    • Hemotransfusão com cautela: alvo de HB entre 7g/dl e 8 g/dl; não fazer plasma fresco de rotina; considerar transfusão de plaquetas quando inferior a 50.000;
    • Rastreio infeccioso (EAS, urocultura, radiografia de tórax, paracentese com análise do líquido ascítico a fim de avaliar PBE); antibioticoprofilaxia, na ausência de achados de infecção ativa: ceftriaxona 1g, uma vez ao dia;
  • Tratamento medicamentoso: vasoconstritores esplâncicos, como terlipressina e análogos de somatostatina (octreotida) assim que haja suspeita de HDAv e manter até cinco dias após endoscopia;
  • Tratamento endoscópico: dvéspera ser realizada após estabilização hemodinâmica, de preferência em, até, 12 horas da internação hospitalar;
    • Deve-se considerar proteção de vias aéreas em caso de sangramento maciço, encefalopatia hepática graus III ou IV e incapacidade de manter ventilação/oxigenação adequada;
    • Ligadura de metalúrgico (LEVE) é o tratamento de escolha para varizes esofágicas e terapia com cianoacrilato é o tratamento de escolha para varizes gástricas ou ectópicas;
    • O frasco de Sengstaken – Blakemore pode ser usado como terapia de ponte em hemorragias não controladas;
  • PONTAS (Derivação portossistêmico intra-hepático transjugular):
    • Considerar nossos casos de HDAv refratário/recorrente.
    • TIPS precoce (dentro de 72 horas) pode melhorar a mortalidade em pacientes com alto risco de ressangramento
  • Profilaxia secundária
    • Deve ser realizado com tratamento endoscópico (LEVE) associado à terapia farmacológica (beta-bloqueadores não seletivos)

Leia ainda: Insuficiência hepática aguda: o que é preciso saber na hora do atendimento

Ascite

  • Complicação mais comum da cirrose hepática, apresentando impacto no prognóstico e na qualidade de vida;
  • Uma paracentese diagnóstica deve ser realizada sempre que:
    • Primeiro episódio de ascite;
    • Internação hospitalar em paciente com ascite
    • Descompensação da cirrose hepática.
  • A ascite da cirrose hepática é transudativa, apresentando gradiente albumina soro-ascite (GASA) maior ou igual a 1,1;
  • Tratamento
    • Restrição de som: até 2g/dia
    • Diureticoterapia: espironolactona (100-400 mg/dia) ± furosemida (40-160 mg/dia)
    • Paracentese de ruptura, se ascite tensa ou refratária, com reposição de albumina sempre que retire cinco ou mais litros de ascite, a fim de evitar disfunção circulatória pós-paracentese
    • DICAS: considerar em pacientes com ascite refratária, como ponte ao transplante hepático

Sépse

  • Os principais tipos de infecção na cirrose hepática são: infecção do trato urinário (ITU), infecção respiratória inferior (pneumonia) e peritonite bacteriana espontânea (PBE);
  • Pacientes cirróticos são mais propensos a desenvolver sepse e choque séptico, dessa forma o reconhecimento precoce é muito importante, considerando rastreio infeccioso sempre que haja descompensação da cirrose (HDAv, surgimento ou piora da ascite, encefalopatia hepática ou lesão renal aguda)

Peritonite bacteriana espontânea (PBE)

  • 10% dos pacientes cirróticos internados com ascite desenvolvem PBE;
  • Reconhecimento e tratamento precoce redução da mortalidade;
  • O diagnóstico é feito com contagem de polimorfonucleares do líquido ascítico maior que 250/mm³
  • O principal germe envolvido no PBE do paciente cirrótico é um E. coli
  • Infecção comunitária pode ser tratada com cefalosporinas de 3ª geração (ceftriaxona);
  • Infecções relacionadas aos cuidados de saúde podem ser tratadas com antibióticos de amplo espectro a depender do perfil de resistência local (Ex: piperacilina-tazobactam, carbapenêmicos);
  • Deve-se instituir profilaxia secundária para PBE com norfloxacino 400 mg/dia.

Disfunção renal

  • Cerca de 60% dos pacientes cirróticos internados em ITU apresentam disfunção renal;
  • A disfunção renal aguda pode ser do tipo pré-renal (hipovolemia, infecção), renal intrínseca (NTA, medicamentos, doença renal parenquimatosa) e pós-renal;
  • Síndrome hepatorrenal
    • Condição especial, associada ao portal de hipertensão, na qual a vasodilatação esplâncnica leva a uma redução do volume circulante eficaz, cursando com ativação dos sistemas nervoso simpático e renina angiotensina aldosterona, cursando com vasoconstrição renal intensa;
    • Diagnóstico: paciente com critérios de lesão renal aguda, sem resposta à expansão volêmica com albumina 1g/kg/dia durante 48 horas e sem outra causa aparente de disfunção renal;
    • Tratamento: vasoconstritor esplâncnico (terlipressina) associado à albumina;
    • Tratamento definitivo: transplante hepático.

Encefalopatia hepática

  • Ocorre em 30-40% dos pacientes com cirrose hepática, apresentando alta taxa de recorrência;
  • Apresenta amplo espectro de manifestações neuropsiquiátricas, sendo classicamente simples através da escala de West Haven:
GRAU MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS
EU Ansiedade/euforia; distúrbio do sono (alteração do ciclo sono-vigília); atenção reduzida
II Achados do grau I + Letargia/apatia; desorientação temporal; mudança de comportamento; batendo as asas
III Sonolência; desorientação grave; confuso; alterações graves de comportamento
4 Coma
  • Deve-se pesquisar e tratar fatores precipitantes, como: infecção, hemorragia gastrointestinal, desidratação, constipação, distúrbios eletrolíticos e medicamentos (benzodiazepínicos, opioides).
  • Tratamento: lactulose (alvo sã o 2 a 3 evacuações amolecidas ao dia) ou rifaximina 550 mg, 2 vezes ao dia. Considerar proteção de vias aéreas nas encefalopatias grau III e IV.
  • Pesquisar presença de derivação portossistêmico com estudos de imagem contrastados, especialmente em casos de encefalopatia persistente sem outros sinais de progressão da doença hepática.

Síndrome hepatopulmonar

  • Deve ser suspeitada a presença de platipnéia (falta de ar em ortostase) e ortodeoxia (dessaturação arterial em ortostase).
  • Diagnóstico: presença de hipoxemia na gasometria arterial (PaO2 menor que 60 mmHg no ar ambiente) em pacientes com hipertensão portal com presença de vasodilatação intrapulmonar comprovada por ecocardiograma com microbolhas;
  • Tratamento: suporte; transplante hepático

Hipertensão portopulmonar

  • Ocorre em 5% a 8% dos pacientes com cirrose
  • Definida como pressão média da artéria pulmonar (PAPm)>25 mmHg em cirróticos, sem outras causas de hipertensão pulmonar
  • Tratamento
    • Vasodilatadores (ex: sildenafil) nos casos moderados a graves;
    • Transplante hepático;
    • Hipertensão portopulmonar grave (PAPm>50 mmHg) é uma contraindicação ao transplante.

Cuidados intensivos na cirrose hepática

  • Pacientes com cirrose hepática descompensada são considerados de alto risco cirúrgico;
  • Deve-se ter atenção ao manejo hemodinâmico, visto que esses pacientes tendem à hipotensão (baixa resistência vascular periférica e elevado débito cardíaco), devendo-se ter cautela com a reposição volêmica.
  • Há desequilíbrio entre fatores pró e anticoagulantes, devendo-se avaliar a coagulação, preferencialmente, através do tromboelastograma
  • É necessário cautela no uso de agentes anestésicos, analgésicos e bloqueadores neuromusculares do metabolismo hepático,
  • Deve-se pesquisar e corrigir distúrbios hidroeletrolíticos, sendo os mais comuns: hiponatremia, hipo/hipercalemia e hipomagnesemia
  • Cuidados com hipoglicemia devem ser redobrados

Transplante hepático

  • Todo paciente com cirrose hepática descompensada deve ser avaliado para transplante hepático;
  • Pacientes com abuso de álcool devem ter pelo menos seis meses de abstinência.

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Mensagem prática

A cirrose hepática é uma condição frequente de internação hospitalar e em unidades de terapia intensiva. Dessa forma, os médicos que cuidam desses pacientes precisam estar familiarizados com o reconhecimento e manejo das principais complicações dessa condição e estarem atentos às particularidades dos cuidados intensivos em pacientes hepatopatas.

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Autor

Graduada em Medicina pela Universidade Federal Fluminense ⦁ Residência médica em Clínica Médica pelo Hospital Universitário Antônio Pedro (UFF) ⦁ Residente em Gastroenterologia no Hospital Universitário Cassiano Antônio de Moraes (UFES) ⦁ Instagram: @dra.fernandaazevedo

Referências bibliográficas:Ícone de seta para baixo

  • Jonathan Pearson, Euan Thomson. Descompensado fígado cirrose. Anaesthesia & Intensivo Cuidado Medicamento. Volume 25, Emitir 1, Janeiro 2024, Páginas 42-47.

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