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A eletroconvulsoterapia (ECT) é um tratamento altamente eficaz para pacientes com psicose, quadros resistentes ao tratamento e risco de suicídio agudo, mas está associado a efeitos neurocognitivos adversos. A indução de convulsões por estimulação magnética transcraniana (EMT) passou a ser extensamente científica, mitigando os efeitos neurocognitivos mantendo a eficácia da ECT, com resultados promissores.

O estudo conduzido por Zhi-De Deng e colaboradores pretende contribuir para essa evidência comparando ECT unilateral à direita em altas doses com magnetoconvulsoterapia em pacientes com episódio depressivo.

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Magnetoconvulsoterapia versus eletroconvulsoterapia para episódio depressivo maior

Método: magnetoconvulsoterapia vs. ECT

Participantes de ambos os gêneros, com idade entre 18-90 anos, referenciados para realização de ECT, com diagnóstico de episódio depressivo no contexto de um Transtorno Depressivo Maior ou Transtorno Bipolar baseado na Entrevista Clínica Estruturada para o DSM-IV-TR e pontuação maior ou igual a 18 na Escala de Depressão de Hamilton com 24 itens (HAM-D24) foram elegíveis. Foram excluídos participantes com transtornos neurológicos, trauma cefálico, contraindicações a EMT, com condições médicas graves ou instáveis, grávidas ou amamentando, com história de realização de ECT nos últimos seis meses ou ECT prévio com falha terapêutica e pontuação inferior a 24 no Miniexame do Estado Mental.

O ensaio clínico clínico duplo cego foi conduzido em três centros durante junho de 2007 e agosto de 2012 comparando a eficácia e efeitos neurocognitivos da ECT e magnetoconvulsoterapia. Os pacientes foram acompanhados por seis meses após a intervenção para avaliação da durabilidade do efeito clínico. As medicações antidepressivas foram interrompidas com no mínimo 3 dias de antecedência.

As consultas clínicas foram conduzidas no linha de base, na manhã de cada sessão, 24-72 após o último tratamento. A medida principal do estágio primário foi a HAM-D24. O inventário de sintomatologia depressiva (ISD) foi o estágio secundário. Também foram utilizados o ISD – autorrelato, a melhoria na Impressão Clínica Global (CGI) e a Avaliação Global do Funcionamento. Efeitos adversos subjetivos físicos, cognitivos e relacionados ao humor também foram avaliados. A função cognitiva foi avaliada através do Minimental no linha de base e 72 horas após a última sessão do tratamento. Perguntas relacionadas à orientação auto e alopsíquica após o retorno à respiração espontânea também foram feitas.

O seguimento foi feito duas vezes por mês nos primeiros dois meses e uma vez por mês nos demais.

Para garantir que os pacientes não saibam sobre qual intervenção foram submetidos, eles foram preparados da mesma forma e o barulho do aparelho de EMT foi tocado durante a sessão de ECT.

Os pacientes receberam tratamento três vezes por semana até atingirem a remissão (redução ≥ 60% nos escores do HAM-D24 ou pontuação ≤ 8) ou até atingir um platô na resposta (redução ≤ 3 nos escores do HAM-D24 de duas sessões subsequentes após a 8ª sessão). Se na 8ª sessão a redução do escore da HAM-D24 fosse ≤ 25% as sessões foram descontinuadas e os pacientes voltaram para o tratamento clínico usual. Recaída foi definida como escores ≥ 16 ou um aumento de ao menos 10 pontos da HAM-D24 em duas visitas com no mínimo uma semana de intervalo, presença de sintomas psicóticos ou suicidas e necessidade de internação.

Resultados e Discussão

Foram incluídos 73 pacientes no trabalho, 41 (56,2%) eram mulheres, idade média de 48 anos (DP: 14,1); 35 foram randomizados para magnetoconvulsoterapia e 38 para ECT. Os grupos tinham características sociodemográficas semelhantes. A duração média do episódio depressivo foi de 2,4 anos (DP: 3,3) e 87,7% dos pacientes eram refratários ao tratamento com psicofármacos.

Completaram o tratamento 53 pacientes (72,6%). Na análise por intenção de tratar, 18 pacientes (51,4%) da magnetoconvulsoterapia e 16 (42,1%) da ECT responderam ao tratamento. 13 pacientes (37,1%) da magnetoconvulsoterapia e 10 (26,3%) da ECT remitiram. Dos pacientes que completaram o tratamento, 17 (58,6%) de 29 do grupo da magnetoconvulsoterapia e 15 (62,5%) de 24 do grupo ECT responderam ao tratamento e 13 (44,8%) de 29 do grupo magnetoconvulsoterapia e 10 (41,7%) de 24 no grupo ECT remitiram.

Não houve diferença entre a magnetoconvulsoterapia e o ECT nas taxas de remissão e resposta. O efeito antidepressivo manteve-se durante os meses seguintes. A velocidade de resposta foi igual entre os grupos até a sessão oitava, mas o ECT teve uma velocidade de remissão mais rápida quando comparado com a magnetoconvulsoterapia. Dessa forma, os pacientes no grupo ECT receberam em média 6,7 ​​sessões (DP: 3,3) enquanto os pacientes da magnetoconvulsoterapia receberam 9,0 (DP: 3,0) sessões, diferença de 2,3 sessões (P=0,003) .

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A função cognitiva global se manteve preservada em dois grupos, mas os pacientes submetidos à magnetoconvulsoterapia se recuperaram mais rapidamente a orientação.

Houve 5 eventos adversos graves, todos no grupo ECT (ideação suicida, aumento pressórico transitório durante a sessão de ECT e melhoria pós-ictal prolongada). No grupo de magnetoconvulsoterapia houve 4 eventos adversos, 2 sessões relacionadas (náuseas e vômitos), um problema técnico no aparelho e um quadro álgico não relacionado à sessão.

Dor de cabeça (P=0,002), náusea (P=0,006) e dor muscular (P <0,001) ocorreram com mais frequência nos pacientes que fizeram ECT. Os pacientes que receberam ECT relataram confusão e desorientação mais intensas (P=0,03). Pacientes de magnetoconvulsoterapia obtiveram melhor registro das memórias autobiográficas após o tratamento (P=0,01) e maior detalhamento das memórias (P=0,03). O tempo de recuperação após a magnetoconvulsoterapia foi de poucos minutos, antes de quase 20 minutos da ECT.

Limitações

Ausência de grupo placebo.

Limitações técnicas dos dispositivos de EMT: na ECT a carga fornecida é seis vezes maior que os limiares convulsivos, o que nem sempre era possível com o aparelho do EMT, apesar do dispositivo usado ser o mais potente disponível no momento de realização do estudo. Dessa forma, no curso do estudo houve uma diminuição progressiva do tempo de duração das convulsões causadas pelo EMT, indicando que a dose do EMT foi insuficiente para compensar a ação anticonvulsivante causada pelo tratamento.

O estudo não tinha poder estatístico para comprovar a não inferioridade da magnetoconvulsoterapia em relação à ECT.

Importância para a prática clínica

Esse é o maior ensaio clínico duplo cego arriscado comparando os resultados da magnetoconvulsoterapia e do ECT.

É o estudo primeiro a demonstrar, para além da eficácia antidepressiva semelhante na fase aguda entre as duas técnicas, a manutenção do efeito por seis meses.

A velocidade de resposta ao tratamento é maior com a ECT. Desse modo, se por um lado a magnetoconvulsoterapia possui menos efeitos colaterais físicos e cognitivos, por outro os pacientes estão expostos mais algumas vezes aos riscos da anestesia geral.

Há uma necessidade de melhoria técnica dos dispositivos de EMT para compensar o aumento dos limiares convulsivos produzidos pelo tratamento.

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Autor

Médica pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Residência em Psiquiatria pela Universidade de São Paulo (USP). Mestranda em Psicologia Social pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP). Psiquiatra Assistente do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (HU-USP).

Referências bibliográficas:Ícone de seta para baixo

  • Deng Z,Luber B,McClintockSM,Weiner RD,Husain MM,Lisanby SH. Resultados clínicos da terapia de convulsão magnética versus terapia eletroconvulsiva para episódio depressivo maior:Um ensaio clínico randomizado.Psiquiatria JAMA. Publicado on-line em 06 de dezembro de 2023. DOI: 10.1001/jamapsychiatry.2023.4599

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