Sua Radio Online Clique Aqui

Uma doença com vários nomes, manifestações ​clínicas​ pouco específicas e que pode acontecer em diferentes contextos, desde a infância até a vida adulta. Essa é a linfohistiocitose hemofagocítica (LHH), também conhecida como síndrome de ativação macrofágica (SAM) e síndrome hemofagocítica. 

A LHH é uma doença multiorgânica ameaçadora à vida, caracterizada por febre persistente, citopenias, hepatoesplenomegalia e outros sintomas de órgãos alvo que demanda elevado grau de suspeição para seu diagnóstico.   

Veja também: AAP orienta pediatras sobre o impacto das alterações climáticas na saúde infantil

Close de uma das mãos de uma criança internada com linfohistiocitose hemofagocítica sendo segurada pela de um adulto

Fisiopatologia  

A doença é causada pela ativação excessiva de macrófagos e linfócitos, levando a uma hiperinflamação sistêmica grave, desencadeada por uma série de cenários clínicos. ​Além disso, a linfohistiocitose hemofagocítica inclui​ formas primárias e secundárias, relacionadas a gatilhos diversos, ​como​ infecções, neoplasias e doenças reumatológicas.   

Diferentes designações e etiologias  

​​Classicamente, a LHH é dividida em formas primárias (LHHP) e secundárias (LHHS), baseadas no tipo de gatilho. A LHHP é tipicamente genética, incluindo a LHH familiar (LHHF) e outras doenças que conferem alta suscetibilidade ao desenvolvimento de LHH.

​​​​​​​Por outro lado, a LHHS pode ser desencadeada por doenças genéticas nas quais a LHH não é uma característica proeminente, como alguns erros inatos da imunidade, infecções, doenças reumatológicas e malignidades.  

Geralmente, usa-se a designação SAM no contexto de LHH secundária, principalmente quando o gatilho ​corresponde a​ doenças reumatológicas, embora seja comum que os ​vocábulos​​ ​sejam usados como sinônimos. Já o termo síndrome hemofagocítica​ consiste em ​uma descrição genérica que abrange todas as formas da doença, dando ênfase no processo de hemofagocitose​ que​,​ embora característico da doença, não é um critério obrigatório e pode estar presente em outros cenários clínicos.  

​​Em​ pediatria, o conhecimento sobre a doença é especialmente importante nos quadros de LHHF, que geralmente acomete bebês previamente hígidos, ​dificultando o​ diagnóstico.   

Atualmente, mais de ​25​ genes foram identificados como causas genéticas de LHH, incluindo sete que são conhecidos como causas monogênicas de LHH familiar: FAAP24, PRF1, RHOG, SLC7A7, STX11, STXBP2 e UNC13D.   

Manifestações ​c​línicas  

As manifestações clínicas da LHH se sobrepõem​​ ​às de​ diversas doenças, especialmente a sepse. Os pacientes usualmente se apresentam com febre alta e persistente, citopenias, organomegalias​ (​principalmente esplenomegalia)​, e envolvimento de órgãos alvo, podendo se caracterizar por insuficiência hepática, coagulopatia e sintomas neurológicos.

Sintomas gastrointestinais inespecíficos são comuns no início do quadro, incluindo dor abdominal, vômitos e diarreia. Sintomas neurológicos, como crise convulsiva, meningismo, ataxia e letargia são particularmente comuns em crianças.  

Diagnóstico  

Devido à sua raridade e sobreposição clínica com várias outras patologias, a LHH provavelmente é subrreconhecida, exigindo um alto nível de suspeição para o diagnóstico.   

Idealmente, o diagnóstico da doença se baseia em critérios desenvolvidos e publicado​s​ em 2004 pela The Histiocyte Society, que define a doença a partir da presença de, pelo menos, ​5 dentre​ ​8 critérios (Tabela 1). 

No entanto, é importante entender que a apresentação inicial da doença pode não ter todos os critérios necessários. Nesse sentido, ​o diagnóstico​ deve ser aventad​o​ e manejad​o​ de acordo​,​ mesmo que o paciente ainda não preencha ​cinco​ critérios, até porque parte dos critérios laboratoriais podem não estar amplamente disponíveis para realização.   

​​​Tabela 1 – Critérios para Diagnóstico de LHH (2004) 
Febre 
Esplenomegalia 
Citopenia em ao menos 2 linhagens (hemoglobina < 9 g/dL ou < 10 g/dL em neonatos, plaquetas < 100.000 e/ou neutrófilos < 1.000) 
Hipertrigliceridemia (>265 mg/dL) ou hipofibrinogenemia (<150 mg/dL) 
Hiperferritinemia (>500 ng/mL) 
Dosagem de CD25 solúvel (>2400 U/mL ou referência do laboratório) 
Presença de hemofagocitose na medula óssea, baço, linfonodo ou fígado 
Avaliação de citotoxicidade de células NK ausente ou reduzida 

Saiba mais: Manejo de problemas neurológicos em crianças sob VMID em domicílio

Tratamento  

O diagnóstico rápido e preciso é crucial para iniciar o tratamento apropriado e melhorar os desfechos. Além da estabilização clínica e tratamento de gatilhos infecciosos, a base do manejo da doença é o uso de terapias imunossupressoras e drogas quimioterápicas, com o objetivo de reduzir o estado ​hiper-inflamatório​​ ​e eliminar linfócitos T e macrófagos ativados. As drogas mais usadas atualmente são a dexametasona e o etoposido, com pacientes atingindo resposta completa em cerca de metade dos casos.  

Embora o tratamento deva ser iniciado o mais rápido possível, o uso de corticoides e medicamentos quimioterápicos pode​ ​interferir no diagnóstico de malignidade​. Ambos os fármacos​​ ​só devem ser in​i​ciados após investigação adequada, geralmente através de aspiração de medula óssea ou biópsia de tecido.  

​​Pacientes com linfohistiocitose hemofagocítica requerem transplante de medula óssea (TMO) como a terapia ótima para prevenir a recorrência dessa condição crítica. ​ ​​​ 

Selecione o motivo:

Errado

Incompleto

Desatualizado

Confuso

Outros

Sucesso!

Sua avaliação foi registrada com sucesso.

Avaliar artigo

Dê sua nota para esse conteúdo.

Você avaliou esse artigo

Sua avaliação foi registrada com sucesso.

Autor

Graduada em Medicina pela Universidade Estácio de Sá (UNESA) • Residência médica em Pediatria pelo Hospital Universitário Pedro Ernesto (UERJ) • Residência médica em Alergia e Imunologia Pediátrica no Instituto Fernandes Figueira (IFF/FIOCRUZ) • Mestra em Saúde Materno-Infantil (IFF/FIOCRUZ) • Membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI) • Membro do grupo de análise de sequenciamento genético de doenças raras (IFF/FIOCRUZ) • Preceptora da residência médica de Alergia e Imunologia Infantil do Instituto Fernandes Figueira (IFF/FIOCRUZ) • Consultora de amamentação • Instagram: @barbarareis.pediatra

Referências bibliográficas:
Ícone de seta para baixo

  • CANNA, Scott W.; MARSH, Rebecca A. Pediatric hemophagocytic lymphohistiocytosis. 

Blood, v. 135, n. 16, p. 1332–1343, 2020. 

  • GRIFFIN, Georgia; SHENOI, Susan; HUGHES, Grant C. Hemophagocytic lymphohistiocytosis: An update on pathogenesis, diagnosis, and therapy. 
  • Best Practice & Research Clinical Rheumatology, v. 34, n. 4, p. 101515, 2020. 

     

    .

    Deixe um comentário

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *