A tuberculose ainda é uma das principais doenças infecciosas transmissíveis com importância na saúde global. Estima-se que, em 2022, tenham ocorrido aproximadamente 11 milhões de novos casos no mundo, dos quais cerca de 15 a 20% sejam de casos extrapulmonares.Dentre as formas de TB extrapulmonar, a serosite é a principal, sendo a maior parte dos casos de TB pleural. A pericardite tuberculosa é outra forma de apresentação da doença, que, embora menos frequente, tem uma alta taxa de óbitos em seis meses associados, da ordem de 20 a 40%.
Apesar de sua importância clínica, o diagnóstico de pericardite tuberculosa é difícil. O método clássico por meio de baciloscopia com BAAR e cultura tem uma sensibilidade de somente 5% e uma especificidade de 50%. Outros métodos, como a dosagem de ADA, uso de pontuações clínicas e técnicas moleculares, como o GeneXpert MTB/RIF, também apresentam desempenho descoberto. Para o último, estudos comparando-o com cultura e biópsia de pericárdio mostraram uma sensibilidade <60%.

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Estudo
Com o desenvolvimento e aperfeiçoamento de outras técnicas, esperamos que seja possível alcançar outras ferramentas diagnósticas que possuam maior acurácia e que possam ser aplicadas, de forma simples, para identificar TB como etiologia de casos de pericardite. Um estudo publicado na Fórum Aberto de Doenças Infecciosas avaliou a acurácia do GeneXpert MTB/RIF Ultra (uma nova geração de método molecular, com maior sensibilidade) em comparação com a dosagem não estimulada de IFNγ (IRISA-TB), um biomarcador que vem sendo treinado para o diagnóstico de TB e de serosite tuberculosa.
Materiais e métodos
O estudo recrutou pacientes com suspeita de pericardite tuberculosa que foram internados em um hospital na Cidade do Cabo, na África do Sul. Foram considerados como casos suspeitos os indivíduos com derrame pericárdico grande, definido como um espaço> 1 cm ao redor do coração sob visualização em ECO-TT.
Os voluntários incluídos foram submetidos à pericardiocentese guiada por ultrassom e o líquido pericárdico foi submetido à análise bioquímica, citológica, microscopia, cultura para Mycobacterium tuberculoseXpert Ultra e IRISA-TB.
Os participantes foram classificados como tendo TB definido, TB provável ou sem TB.
- TB definição: Um resultado de cultura para M. tuberculose (líquido pericárdico, material de biópsia e/ou escarro) e/ou presença de granuloma caseoso sugestivo de TB na histopatologia e com melhora clínica com tratamento contra TB.
- TB provável: Pacientes que não preenchem seleção microbiológica ou histopatológica para TB definida, mas com indicadores clínicos sugestivos de TB e que receberam tratamento específico.
- Sem TB: Pacientes que não são selecionados para TB definida e nem para TB provável, sem evidência microbiológica ou histológica de TB e/ou que apresentem um diagnóstico alternativo.
Resultados
Foram recrutados 99 pacientes: 39 com TB definida, 35 com TB provável e 23 foram classificados como não tendo TB. As causas para pericardite desses últimos incluíram linfoma, adenocarcinoma, pericardite bacteriana e hipotireoidismo. Dois pacientes não puderam ser classificados e foram excluídos da análise.
Os participantes com TB definidos e provavelmente terão maiores taxas de infecção pelo HIV e maior classificação de NYHA quando comparados com os indivíduos sem TB, além de menores contagens de leucócitos, creatinina e pressão diastólica.
Uma análise dos níveis não estimulados de IFNγ por meio do IRISA-TB foi realizada com amostras de 53 participantes. Os valores foram significativamente maiores nos grupos de TB definidos em comparação com os sem TB (mediana de 93,7 pg/mL vs. 0,0 pg/mL, respectivamente; p <0,0001). Baseado nesses dois grupos, o melhor ponto de corte para o teste foi calculado em 10 pg/mL.
O ensaio recebeu uma sensibilidade de 88,6% (IC 95%=74,1 – 95,5%), uma especificidade de 94,5% (IC 95%=74,3 – 99,1%), um VPP de 96,9% (IC 95%=84,3 – 99,5%) e uma VPN de 81,0% (IC 95%=60,0 – 92,4%). Na comparação entre os 3 grupos, a sensibilidade encontrada foi de 77,3% (IC 95%=65,9 – 85,8%), a especificidade foi de 94,5% (IC 95%=74,3 – 99, 1%), o VPP foi de 98,1% (IC 95%=89,9 – 99,7%) e o VPN foi de 53,2% (IC 95%=36,5 – 69,2%).
O teste GeneXpert Ultra apresentou uma sensibilidade de 71,5% (IC 95%=55,0 – 83,7%), uma especificidade de 100,0% (IC 95%=82,5 – 100,0%), um VPP de 100,0% (IC 95%=86,7 – 100,0%) e uma VPN de 64,3% (IC 95%=45,9 – 79,3%), na comparação de indivíduos comuns como tendo TB definida com os sem TB. Quando os 3 grupos foram comparados, a sensibilidade foi de 37,9% (IC 95%=27,2 – 50,0%), a especificidade foi de 100,0% (IC 95%=82,5% – 100, 0%), o VPP foi de 100,0% (IC 95%=86,7 – 100,0%) e o VPN foi de 30,6% (IC 95%=20,3 – 43,2%).
Comparando os dois métodos, IRISA-TB apresentou maior sensibilidade ao Xpert Ultra em indivíduos sem infecção pelo HIV (100% vs. 60%; p=0,0293) quando se comparou os grupos com TB definida vs. . Na avaliação dos 3 grupos, a sensibilidade do IRISA-TB foi maior tanto em indivíduos com infecção pelo HIV (73,5% vs. 38,8%; p=0,0006) quanto nos sem infecção pelo vírus (88,3% versus 35,3%; p=0,0017). A VPN do IRISA-TB também foi maior na análise dos 3 grupos (53,2% vs. 30,6%; p=0,0431), o que também ocorreu quando se avaliou apenas o subgrupo de pessoas sem HIV (86, 7% versus 54,2%; p=0,0386).
Mensagens práticas
- Neste estudo, o desempenho de um ensaio de dosagem de níveis de IFNγ foi superior ao GeneXpert Ultra para o diagnóstico de pericardite tuberculosa.
- A diferença entre os testes se deu, principalmente, no subgrupo de pessoas sem infecção pelo HIV.
- Importante destacar que mesmo as técnicas padronizadas como padrão-ouro para o diagnóstico de pericardite tuberculosa apresentam desempenho subótimo, o que limita a avaliação de novas metodologias.
- O teste IRISA-TB é diferente do ensaio de IGRA, mais conhecido e já em utilização no Brasil.
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Autor
Infectologista pelo Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (UFRJ) ⦁ Graduação em Medicina na Universidade Federal do Rio de Janeiro
- Randall P, Esmail A, Wilson L, Makambwa E, Pooran A, Tomasicchio M, Dheda K, Ntsekhe M. GeneXpert MTB/RIF Ultra vs Interferon não estimulado