Apesar de sabermos que pacientes têm melhora de desfechos cardiovasculares com redução do colesterol LDL, estudos do mundo real mostram que até 80% dos pacientes com doença cardiovascular aterosclerótica não conseguem atingir a meta de LDL. Isso pode ser devido à inércia médica, falta de aderência e efeitos colaterais.
A primeira escolha de tratamento são as estatinas de alta potência, porém podem ser permitidas medidas adicionais, como ezetimiba, ácido bempedoico ou inibidores do PCSK9.
O inclisiran é um medicamento que interfere no ácido ribonucleico e inibe a produção de PCSK9 hepático, aumentando a expressão dos receptores de LDL e sua depuração, com redução do LDL em aproximadamente 50%. Essa medicação é utilizada duas vezes por ano e sua eficácia e segurança já foram avaliadas em estudos prévios.
Foi feito então um estudo para avaliar o uso do inclisiran de forma precoce quando há falha de alcance do alvo de LDL com estatinas. Os resultados deste estudo (VICOTORION-INITIATE) foram apresentados no congresso do Colégio Americano de Cardiologia (ACC 2024).

Métodos de estudo e população envolvida
Foi um estudo prospectivo, randomizado, multicêntrico, aberto, de fase 3b, para avaliar a efetividade da utilização do inclisiran antes de outras opções terapêuticas comparadas ao tratamento habitual.
Os pacientes tinham 18 anos ou mais, história de doença cardiovascular aterosclerótica (coronária, cerebrovascular ou doença arterial periférica), LDL ≥ 70mg/dL ou colesterol não HDL ≥ 100mg/dL e triglicerídeos <500mg/dL, em uso da dose máxima de estatina tolerada.
Os pacientes randomizados para o grupo de intervenção receberam uma dose de 300mg, via subcutânea, nos dias 0,90 e 270, associado ao tratamento habitual. O estágio primário foi mudança no LDL no seguimento e descontinuação da estatina 30 dias ou mais antes do término do estudo.
Resultados
Foram randomizados 450 pacientes, sendo 225 para cada grupo. Os pacientes tinham idade média de 67 anos, 30,9% eram do sexo feminino, o LDL médio era 97,4mg/dL e a maioria tinha como antecedente doença coronariana.
No dia 330, a média de mudança de LDL foi -60% no grupo incluído e -7% no grupo tratamento habitual, com grande diferença entre os grupos (p<0,001). A descontinuação da estatina em pacientes com intolerância a estatina foi maior no tratamento em grupo habitual do que na intervenção em grupo.
Análises secundárias mostraram redução do LDL de 58mg/dL no grupo inclisiran e 10,5mg/dL no tratamento habitual. Muitos mais pacientes alcançaram a meta de LDL no grupo de intervenção: redução de 50% do LDL: 69,8% x 5,3%; LDL <70mg/dL: 81,8% x 22,2%; LDL <55mg/dL:71,6% x 8,9% respectivamente nos grupos intervenção e tratamento habitual.
A maior parte dos pacientes em ambos os grupos manteve apenas estatina, com pouca associação com outros medicamentos. A ocorrência de eventos adversos foi maior no grupo de intervenção, com custos de ocorrência no local da injeção. Não ocorrem eventos graves.
Comentários e conclusões
Este estudo avaliou a implementação de uma estratégia de redução do colesterol, baseada no uso de inclisiran, quando a meta de LDL não é atingida com estatina na dose máxima tolerada. Essa estratégia levou a maior redução de LDL em comparação ao tratamento habitual, realizado com outros medicamentos hipolipemiantes.
Esse estudo é um estudo do “mundo real”, no qual os medicamentos poderiam ser ajustados de acordo com a necessidade. Boa parte dos pacientes não teve o tratamento otimizado como poderia e isso pode ter sido por inércia médica ou questões de custo por exemplo.
Como concluímos que o grupo incluído teve redução importante do colesterol, mostrando que a medicação é eficaz e possível de ser renovada na prática clínica. Além disso, a medicação parece segura e existem estudos em andamento para avaliar a segurança e tolerabilidade no longo prazo.
Ainda assim, estudos planejados duplo-cegos podem auxiliar na avaliação de segurança e eficácia da implementação precoce da medicação em pacientes que não conseguem atingir o alvo de LDL e confirmar os resultados deste estudo.
Veja aqui todos os destaques da nossa cobertura do ACC 2024!
Confira também o Instagram eo site pai Afya Cardio Papers para mais informações sobre a edição deste ano do congresso do Colégio Americano de Cardiologia.
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Autor
Editora de cardiologia do Portal PEBMED ⦁ Graduação em Medicina pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) ⦁ Residência em Clínica Médica pela UNIFESP ⦁ Residência em Cardiologia pelo Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) ⦁ Atualmente ativo nas áreas de terapia intensiva, cardiologia ambulatorial, enfermaria e em ensino médico.
- Koren MJ, Rodriguez F, East C, Toth PP, Watwe V, Abbas CA, Sarwat