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Cármen Lúcia quer que tenhamos fé cega
Por Alexandre Garcia

Foi muito estranha a ministra Cármen Lúcia falar sobre a apuração da eleição do ano que vem. Sendo você, uma pessoa cética; só acredita naquilo do qual tenha provas sólidas. Não é questão de fé, de acreditar, porque isso é religião, é outra coisa. Ela disse que são feitas verificações em tudo, nas urnas, nos computadores, na apuração, e que tudo o que foi posto na urna pelo eleitor – ela teve o cuidado de dizer “o eleitor e a eleitora”, que perda de tempo – será apurado. E o que for apurado será “totalizado”, disse ela, querendo dizer que será somado. E que o que for somado será divulgado, garantindo, disse ela, a absoluta confiança no sistema brasileiro, que é um modelo para o mundo.
Segundo a própria Justiça Eleitoral, só 16 países acompanham o Brasil. Há quem diga que são apenas Butão e Bangladesh, mas a Justiça Eleitoral diz que são 16 países que não têm comprovante. O comprovante impresso já foi aprovado no Congresso mais de uma vez; esquerda e direita já propuseram isso, principalmente o PDT, Flávio Dino, Leonel Brizola, o neto do Brizola, Roberto Requião. Todos sentiram a necessidade de haver um comprovante no caso de uma dúvida, e eu mantenho essa ideia. É preciso saber. Imaginem, se não consigue entender, como é que alguém com menos curiosidade terá certeza de que seu voto foi realmente apurado, somado, computado e anunciado?
Tribunais superiores da Europa já decidiram que isso é inaceitável; é preciso que o eleitor entenda que seu voto foi apurado e tenha confiança na apuração. A eleição na Aprosoja, por exemplo, é via digital, mas cai o papelzinho ao lado. Se houver dúvida, conferem no papelzinho. A ministra Cármen Lúcia tem boa intenção, mas é como se um pregador estivesse no púlpito, dizendo coisas em que devemos acreditar, mas na base da fé. Só que, quando se trata de eleição, precisamos da prova para eliminar o ceticismo natural.
Na segunda-feira foi anunciada a resolução que deixa de lado a exigência de 20 horas-aula em autoescola para tirar a Carteira Nacional de Habilitação. Exige-se duas horas, e não necessariamente em autoescola; pode ser com um instrutor credenciado. É preocupante porque com a autoescola as pessoas já não aprendem a dar sinal de mudança de direção, por exemplo. Dão sinal quando já estão mudando a direção, e aí não adianta nada. Seta serve para avisar a nossa intenção para quem vem na frente, quem vem ao lado, quem vem atrás, o pedestre, quem está esperando para entrar na rua. Tem de ser um reflexo. Isso já é um reflexo: prá não precisar decidir que tem que ligar a seta; sai automaticamente, da medula, não sai do cérebro. Dirigir é isso: você tem de sentir as quatro rodas. Se pegou uma pedrinha, você sentiu que a roda esquerda dianteira pegou aquela pedrinha. Isso é saber dirigir. A preocupação é, se os acidentes não vão aumentar a partir de agora.
O ministro do STF André Mendonça revelou uma conversa que ele teve com o embaixador dos Estados Unidos quando era ministro da Segurança Pública e Justiça. O embaixador perguntou para Mendonça se ele sabia qual é a terceira commodity de exportação do Brasil; o ministro respondeu que não e o embaixador disse “droga”. Ou seja, minério de ferro, soja e droga. E essa revelação vem no momento em que Donald Trump está todo dia falando da necessidade de conter a entrada de droga nos Estados Unidos. E agora, graças à COP, todos sabemos (antes, só poucos sabiam) que as facções criminosas nacionais e estrangeiras, mexicanas, peruanas, colombianas, venezuelanas, estão dentro da Amazônia brasileira, enquanto o Brasil faz discurso marqueteiro de soberania.