Um grupo italiano de Porri e colaboradores fez uma revisão narrativa com o objetivo de avaliar o impacto de diferentes ferramentas digitais na prevenção e no tratamento da obesidade infantil, que foi publicada na revista Fronteiras em Pediatria. Neste artigo, destacaremos as principais contribuições desse artigo.
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Metodologia
Foi feita uma revisão narrativa por meio da busca de artigos publicados de 2013 até setembro de 2023 nas bases de dados eletrônicos PubMed, Scopus e Web of Science com as seguintes palavras-chave: “obesidade pediátrica; obesidade infantil; obesidade em crianças; excesso de peso pediátrico; excesso de peso na infância; excesso de peso em crianças; prevenção da obesidade; tratamento da obesidade; aplicativo; nova tecnologia; saúde digital; Smartphone; aplicativo para smartphone; saúde móvel; acompanhamento digital, telemedicina”.
Resultados
A saúde digital engloba a medicina digital (DM) e o tratamento digital (TD), o que representa um conjunto de serviços nos setores de saúde e bem-estar como dispositivos digitais ou vestimentas, e inteligência artificial.
Quatro tipos de disciplinas foram as principais referências nos estudos: (1) telemedicina e mensagens de texto; (2) aplicativo de celular; (3) ferramentas de internet e mídias sociais; (4) jogos de exercícios, videogames e jogos de imersão.
A telemedicina é uma aplicação de informações eletrônicas e tecnologias de comunicação para fornecer e fortalecer o estado clínico de saúde do paciente. Alguns estudos demonstraram uma redução significativa, embora pequena, na pontuação Z do Índice de Massa Corporal (IMC) (0,1 ponto ou menos).
O uso de programas de mensagens de texto foi associado a mudanças nos comportamentos de saúde (mais atividade física, mais consumo de frutas e vegetais, menor ingestão calórica total, e menor tempo gasto na tela) e significativamente reduzido na taxa de evasão em crianças obesas . Os pontos fortes da telemedicina são satisfação familiar e do paciente, taxas de retenção de 80-100% e alta frequência. Uma limitação é o alto custo da telemedicina.
O uso de aplicativos de celular para o manejo da obesidade infantil foi avaliado como uma estratégia eficaz de forma isolada ou associada ao tratamento tradicional para aumentar a atividade física e melhorar hábitos alimentares saudáveis dos pacientes. Nos últimos estudos, o feedback positivo dos responsáveis depende do envolvimento deles no desenvolvimento do aplicativo.
Ferramentas da internet como fóruns e mídias sociais podem sugerir ideias de refeições saudáveis e suporte social para mudança de comportamento, assim como fazer com que os adolescentes obesos se sintam mal aos verdadeiros modelos “fitness” e por não conseguirem perder peso.
Videogames de exercício envolvendo movimentos corporais de dançar, pular ou imitar atividades de exercício da vida real. Por serem divertidos e motivadores, esses videogames são chamativos para crianças e promovem adesão a longo prazo à medida que as crianças são estimuladas por meio de recompensas virtuais. Também promovem melhoria da autoestima e da qualidade de vida.
Outra ferramenta no tratamento da obesidade é o videogame sério, que visa a educação nutricional e dietética como escolher alimentos mais saudáveis ou resistir à tentativa alimentar. Uma revisão sistemática que analisou 17 videogames sérios constatou que houve um aumento da atividade moderada a alta, nenhum conhecimento sobre nutrição adequada e como ter um estilo de vida que previna ou trate o sobrepeso/a obesidade durante o jogo, mas não foi distribuído aumento em atividade física fora do jogo. Apenas dois desses 17 jogos envolvem atividades práticas como preparar uma refeição saudável.
Algo que é enfatizado pelos autores é que as ferramentas digitais também podem ser usadas de forma negativa para persuadir as crianças a consumir alimentos e bebidas que são ricos em calorias e baixos em valores nutricionais, chamados advergames.
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Discussão e dicas sobre obesidade infantil
O tratamento para obesidade é desafiador, pois envolve uma mudança de hábitos e estilo de vida. O ambiente familiar tem papel importante na obesidade infantil, deve ser protetor e antiobesogênico por conta de sua forte influência dos hábitos dos responsáveis nos hábitos da criança.
Os estudos controlados controlados mais recentes demonstraram que ainda não há impacto significativo no IMC, há uma possível mudança comportamental infantil. Entretanto ainda são necessários mais estudos com amostras maiores, intervenção prolongada e tempo de intervenção maior ficando em ferramentas de saúde conforme as necessidades personalizadas dos pacientes assim como garantir acompanhamento por equipe de saúde para avaliar esses resultados e, ferramentas para avaliar a adesão e engajamento dos pacientes com essas ferramentas. O artigo pontua bem a existência de videogames que incentivam o consumo de alimentos não saudáveis.
Este artigo traz contribuições importantes na análise dessas ferramentas digitais, mas cuida de uma crítica ao modelo de vida atual globalizado que enfatiza uma grande dedicação de horas ao trabalho, muitas famílias no contexto brasileiro moram em áreas violentas com dificuldade de acesso a espaços de lazer seguros , com pouco incentivo aos esportes, custo alimentar alto nos últimos tempos e muita propaganda para consumo de “comida rápida”, doces, sucos e refrigerantes.
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Autor
Graduação em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) ⦁ Residência em Pediatria Geral pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) ⦁ Residência em Medicina Intensiva Pediátrica pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA) ⦁ Mestre em Saúde Materno-Infantil pela UFRJ
- Porri D, Morabito LA, Cavallaro P, Rosa EL, Pomi AL, Giorgia Pepe, Malgorzata Wasniewska. Hora de agir contra a obesidade infantil: o uso da tecnologia. Frente. Pediatr. 12:1359484. DOI: 10.3389/fped.2024.1359484