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O primeiro trimestre de 2024 trouxe dados alarmantes sobre a epidemia de dengue no Brasil. Até esta semana foram contabilizados 1.289.897 casos prováveis ​​de dengue, com 329 mortes confirmadas.

Um entre os vários desafios impostos a quem está na linha de frente são as decisões relativas ao manejo da terapia antitrombótica.

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Em que se apoiar para uma tomada de decisão?

Imagine um paciente de 65 anos, hipertenso, diabético e tabagista, que desenvolve um quadro de dengue clássico 20 dias após o tratamento de uma síndrome coronariana aguda que foi eficaz na implantação de um stent farmacológico no terço proximal da artéria descendente anterior e prescrição de dupla antiagregação plaquetária (DAPT): AAS e clopidogrel.

A vinheta clínica deixa clara uma condição de risco extremamente elevado de evento trombótico agudo com a suspensão da DAPT, com possibilidade de trombose aguda de stent e consequente infarto do tipo 4, expondo uma grande área de miocárdio ao insulto isquêmico. Em contrapartida, na vigência de trombocitopenia grave e diatese hemorrágica, a dupla antiagregação implica em risco aumentado para sangramentos maiores.

De forma a homogeneizar as condutas e facilitar a tomada de decisão para quem está na ponta do cuidado, a 6ª edição do manual de dengue do Ministério da Saúde, publicado em janeiro de 2024, traz algumas recomendações práticas. De toda maneira, as decisões são complexas e devem ser individualizadas. Sempre que possível, a discussão do caso com o médico assistente, seja cardiologista, hematologista ou reumatologista, deve ser encorajada.

Princípios norteadores das condutas

São três as principais parâmetros que orientam as condutas quanto à terapia antitrombótica entre indivíduos com dengue:

  • A balança entre o risco de trombose contra risco de sangramento;
  • A contagem de plaquetas;

Nos casos de doença arterial coronariana em que foram tratados com stents serão considerados ainda:

  • Tipo de stent (farmacológico contra convencional);
  • Intervalo de tempo transcorrido desde a realização do procedimento.

Terapia antitrombótica na dengue

Placas (/mm³)

> 50.000

30.000 – 50.000

<30.000

Stent farmacológico <6 meses ou stent convencional <1 mês (DAPT)

Manter um DAPT e acompanhar ambulatorialmente, com contagem diária das plaquetas.

Manter o DAPT e acompanhar em leito de observação, com contagem diária das plaquetas. Suspender a DAPT e acompanhar em leito de observação, com contagem diária das plaquetas e retomada da DAPT com plaquetas> 50.000.
Stent farmacológico> 6 meses, stent convencional> 1 mês, profilaxia secundária de DAC ou AVC (AAS)

Manter AAS.

Manter AAS e acompanhar em leito da observação.

Suspender AAS, acompanhe em leito de observação até que as placas contenham> 50.000.

Anticoagulação terapêutica com AVK (alto risco trombótico)

Dosagem ambulatorial do TAP e contagem de placas diárias.

Internacional com substituições do VKA por HNF quando RNI estiver <2.

Suspensão do VKA com contagem diária de plaquetas e acompanhamento do RNI.

Anticoagulação terapêutica com DOAC (alto risco trombótico)

Manter DOAC.

Interrupção do DOAC, com início de HNF após 24h da última dose ou transcorridas 2 vezes a meia-vida

Interrupção do DOAC, com internação hospitalar e vigilância diária das placas, considerando-se a retomada quando houver> 50.000.

DAPT: Dupla antiagregação plaquetária, comumente AAS e clopidogrel; AAS: Ácido acetilsalicílico; VKA: Antagonistas da vitamina K, especialmente a varfarina; DOAC: Drogas anticoagulantes de ação direta, como dabigatrana, apixabana, edoxabana e rivaroxabana. HNF: Heparina não fracionada, geralmente administrada em bomba de infusão contínua quando a finalidade é anticoagulação terapêutica, com a necessidade de monitorar o PTTa e atenção ao surgimento de trombocitopenia causada por heparina, cujo diagnóstico é ainda mais desafiador no cenário de dengue.

Sepulturas de Sangramentos

Na vigilância de sangramento grave, associada à plaquetopenia, além da suspensão da terapia antitrombótica e medidas hemostáticas específicas na dependência do local de sangramento, são recomendadas as seguintes condutas:

  • DAPT: transfusão de plaquetas (1U para cada 10 kg de peso);
  • Varfarina: plasma fresco congelado (15 mL/kg) ou complexo protrombínico ativado com alvo de RNI <1,5 e vitamina K 10 mg por via oral ou endovenosa (evitar o uso em pacientes com síndrome antifosfolípide).
  • DOAC: a indisponibilidade de antídotos no Brasil torna as medidas suportivas e o declínio da meia-vida as condutas mais rotineiras; entretanto, casos disponíveis, podem ser avaliados o andexanet alfa (inibidores do fator Xa) e o idarucizumab (específico para o dabigatrana).

Mensagem prática

A epidemia de dengue no Brasil em 2024 tem proporções alarmantes.A maior incidência da doença traz consigo o acometimento maior de pacientes sob vigilância de terapia antitrombótica.O principal desafio é tomar uma decisão diante dos quadros de sepultura de dengue entre indivíduos com risco trombótico muito alto. Os pilares norteadores das condutas incluem o risco trombótico, o valor das placas e, nos casos de intervenção coronária percutânea prévia, o tipo de placa stent e o intervalo desde a sua implantação. As evidências nesse campo são escassas, valendo-se da opinião de especialistas com base em plausibilidade biológica.

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Autor

Graduação em Medicina em 2013 pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Residência em Clínica Médica (2016) e Gastroenterologia (2018) pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG). Residência em Endoscopia digestiva pelo HU-UFJF (2019). Preceptor do Serviço de Medicina Interna do HU-UFJF (2019).

Referências bibliográficas:Ícone de seta para baixo

  • Ministério da Saúde do Brasil. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de Doenças Transmissíveis. Dengue: diagnóstico e manejo clínico: adulto e criança – 6. ed. 2024. 81 p.: il.http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/dengue_diagnóstico_manejo_clinico_6ed.pdf ISBN 978-65-5993-577-2

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