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Política

Liana Lewis: “Apoio é falta de leitura histórica e rigor ético. É indigência intelectual”

A segunda entrevista da série especial Judeus e Bolsonaro, produzida pela Revista Fórum, é com a antropóloga e professora da UFPE Liana Lewis. A pesquisadora trabalha com temas como o racismo e o genocídio da população negra. Natural do Recife (PE), cidade onde vive até hoje, Liana começou falando um pouco sobre sua origem judaica,…

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Liana Lewis: “Apoio é falta de leitura histórica e rigor ético. É indigência intelectual”

A segunda entrevista da série especial Judeus e Bolsonaro, produzida pela Revista Fórum, é com a antropóloga e professora da UFPE Liana Lewis. A pesquisadora trabalha com temas como o racismo e o genocídio da população negra.

Natural do Recife (PE), cidade onde vive até hoje, Liana começou falando um pouco sobre sua origem judaica, histórias que ouvia sobre perseguição e a comunidade na capital pernambucana.

“Cresci ouvindo narrativas de sofrimento e perseguição em casa e na escola. Parte de minha família migrou do Leste Europeu para os Estados Unidos fugindo dos Pogroms (perseguição institucionalizada aos judeus) e outra parte migrou da Alemanha para lá antes da 2° Guerra Mundial, felizmente. No Recife há uma comunidade judaica significativa e bem organizada”, explica.

A primeira abordagem tratando diretamente do apoio de grupos judeus ao presidente Jair Bolsonaro fez Liana organizar uma breve reflexão sobre o quanto o fato parece absurdo.

“Veja… Eu estudei minha vida inteira numa Escola Israelita em Recife e ao longo da minha formação relembrávamos o Holocausto como uma atitude pedagógica de prevenção da violência sofrida na 2ª Guerra Mundial. O Holocausto é uma memória muito forte que opera como uma construção comunitária a partir do imenso horror vivido. Bolsonaro, não apenas com seu governo baseado claramente em um necropoder, em uma política genocida, mas através de atos estéticos claramente nazistas, deveria ser visto como alguém a ser fortemente combatido por um povo que sofreu violentas perseguições ao longo de sua história”, enfatiza.

Na sequência, a acadêmica afirma que o apoio de judeus a uma figura que suscita tanta repulsa é algo que deve ser visto como um sério desvio.

“Para um povo que constrói sua identidade especialmente através do sofrimento e perseguição, apoiar Bolsonaro é falta de leitura histórica básica e rigor ético. É uma profunda indigência intelectual.”

Ela acrescenta que, de um modo geral, essa é também a perspectiva que nota por parte dos acadêmicos de origem judaica com quem mantém contato.

“Alguns professores que conheço concordam que Bolsonaro representa o horror e que suas posturas em muito se assemelham aos pressupostos nazistas”, completa.

Menciono o jantar oferecido ao atual presidente, do qual participaram figuras importantes da comunidade judaica paulista, no início do mês, que gerou tanto mal-estar, para questionar, então, sobre esse apoio que vem se costurando já há algum tempo. Para isso, relembro a repulsiva palestra de Jair Bolsonaro na Hebraica do Rio de Janeiro, um ano antes da eleição da qual saiu vencedor, salientando que o acontecimento gerou uma forte turbulência na comunidade judaica, com protestos vindos de todos os lados.

“Muitos judeus protestaram fortemente (contra o evento de 2017). O problema foi o silenciamento conivente de muitas instituições judaicas. O que a conivência com aquela cena infame revelou é que a identificação de classe e pertencimento racial são muitas vezes mais importantes do que uma ética pregada por quem sofreu opressão. Para os judeus que participaram daquele evento horrendo, onde negros foram chamados pelo atual presidente da República de animais (gado), sob risos criminosos de uma plateia execrável, a experiência histórica de aniquilação, o Holocausto, e o potencial que esta experiência tem de fazer com que seus herdeiros se identifiquem com grupos subalternizados, foram deixados de lado”, disse, subindo o tom.

Liana continuou denunciando a controversa visita de Jair Bolsonaro ao tradicional clube judeu do Rio de Janeiro. Para ela, o evento, que acabara de classificar como “horrendo”, reforçou a inaceitável desumanização do povo negro por parte da elite brasileira, da mesma forma como ocorrera com os judeus na Alemanha Nazista.

“O que aconteceu ali foi um evento de exclusão do outro: judeu, branco, classe alta, ‘versus’ negro e pobre. Lembremos que o povo negro vive um genocídio sistemático por parte da sociedade e Estado brasileiros. Aqueles risos infames foram um claro ato de desumanização do povo negro. Além deste episódio ter provado que alguns judeus não tomaram os horrores do Nazismo como um compromisso ético em relação aos outros. Para mim, espelhou a complacência histórica de alguns judeus para com elementos característicos do Nazismo, algo tão bem revelado por Hannah Arendt, nossa judia mais proeminente. Se para os nazistas éramos porcos, no Brasil de Bolsonaro os negros e quilombolas são alegremente transformados em bois. Rimos tragicamente da desumanização da qual outrora fomos vítimas”, desabafa indignada.

Questiono a antropóloga sobre a definição “genocida” dada à política de Bolsonaro e estabelecida por vários segmentos sociais, da academia e da comunidade internacional, por conta das sistemáticas mortes ocorridas durante sua gestão, sobretudo ocasionadas pela pandemia descontrolada no país, um resultado direto da negligência, irresponsabilidade e, em alguns casos, de ações deliberadas operadas pela gestão do atual presidente.

“Precisamos lembrar que o termo genocídio foi cunhado logo após a 2ª Guerra Mundial pelo jurista judeu polonês Raphael Lemkin, que associou o termo grego “genos” (que significa raça ou tribo) ao termo latino “cide” (que significa assassinato). Para Lemkin genocídio diz respeito à destruição de um grupo, não apenas através do extermínio físico, como também de sua cultura, instituições políticas, língua, religião, segurança, saúde e liberdade. Lemkin ressalta que, ao passo que as ações do genocídio são dirigidas aos indivíduos, não são estes, enquanto entidades isoladas que são seu alvo, e sim enquanto membros de um grupo nacional. Neste sentido podemos afirmar que o governo Bolsonaro está implementando um verdadeiro genocídio contra o povo brasileiro através de atitudes deliberadas de incitar a população a ir ao encontro da Covid-19, além de sua recusa na compra de vacinas, um exíguo Auxílio Emergencial”.

Por fim, Liana Lewis explica, ressalvando as diferenças óbvias entre os dois acontecimentos históricos, que a simpatia por Bolsonaro, de maneira acrítica, é parecida com a ovação e ascensão do Nazismo na Alemanha, no início dos anos 1.930.

“Vivemos na atualidade um movimento muito semelhante aos primórdios da Alemanha nazista: uma simpatia da parte de quem se tornaria vítima do horror. Como judeus, não sofremos perseguição do governo Bolsonaro, mas como brasileiros somos todos fortes candidatos a morrermos asfixiados num leito solitário de UTI (quando existem vagas disponíveis). Enquanto na Alemanha nazista éramos colocados em câmaras de gás, hoje somos todos candidatos a sofremos a tortura de sermos entubados sem anestesia, ou morrermos asfixiados. Mas nenhum judeu, assim como nenhum brasileiro, foi ludibriado por Bolsonaro. O discurso dele sempre foi um discurso de morte, da aniquilação do outro. Quem lhe rendeu o voto ou anulou é diretamente responsável pelo horror que vivemos. Assim como os judeus que na Alemanha nazista não se opuseram aos prenúncios do horror”, compara, encerrando.

Acesse aqui a matéria de abertura da série especial Judeus e Bolsonaro.

Acesse aqui a 1° entrevista, com Guilherme Cohen.

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