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Lugano não acreditava em título com Fernando Diniz e vê “melhor elenco da década” no São Paulo

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Diego Lugano não acreditava que o São Paulo poderia ser campeão com o estilo de futebol praticado pelo time sob o comando do ex-técnico Fernando Diniz.

O relato do uruguaio é de sequer ter sido consultado na época da contratação, em setembro de 2019, e saber da notícia por meio de um conselheiro, enquanto inaugurava um camarote no estádio do Morumbi.

Então diretor de relações institucionais, Lugano diz ter falado ao antigo treinador e ao ex-diretor executivo de futebol Raí dessa discordância de visão de futebol. Ele entendia que o melhor seria uma troca no comando do time.

– À medida que o tempo encurtava e a urgência de ganhar era maior, na minha maneira de ver não achava como a gente ser consistente em jogos importantes de mata-mata ou decisivos com aquela forma de jogar. Não achava, sinceramente. Foi o que tentei fazer a direção entender, que tinha de mudar a forma de jogar para tentar aproveitar esse elenco para obter títulos ainda nesse ano antes de sair. Simplesmente isso, com todo respeito ao treinador e a tomada de decisão. São formas de ver futebol e era minha obrigação por estar lá falar o que achava e pensava – disse Lugano.

– Em algum momento com muito respeito conversei (com Diniz). Entendia que meu vínculo era o Raí, mas um pouco por lealdade, por ser honesto, conversei com ele sobre isso. Que era hora de mudar o estilo de jogar. Só isso. Não houve briga, nem discussão. Pontos de vista de futebol diferentes. Não da maneira de sentir. Ele disse que entendia que daquela maneira iria ganhar. Eu entendia que daquele jeito não via como ganhar. Simplesmente isso – completou.

Lugano, Raí e Fernando Diniz no CT da Barra Funda, do São Paulo: uruguaio discordava da visão de futebol do treinador — Foto: Reprodução / twitter

Lugano, Raí e Fernando Diniz no CT da Barra Funda, do São Paulo: uruguaio discordava da visão de futebol do treinador — Foto: Reprodução / twitter

Justamente por ter essa visão diferente, Lugano se afastou do dia a dia do futebol no CT da Barra Funda. No segundo semestre ele “sumiu”, depois de ter postura ativa nos jogos do São Paulo e até nas redes sociais na primeira metade do ano.

– Muito convencido da ideia dele. Um cara muito legal, muito obcecado. Bonito de ver como defende a ideia dele. Mas estava na obrigação de colocar meu ponto de vista, porque estava meu prestígio e o do Raí em jogo. Éramos os que tinham prestígio a perder. E perdemos, aliás.

Nesta entrevista exclusiva ao ge, Lugano passa a limpo sua trajetória de três anos como dirigente do São Paulo.

Ele revela sua atuação na contratação de Daniel Alves, diz ter sido um erro duplo a demissão de Diego Aguirre e a escolha de André Jardine como substituto por considerar que o processo foi apressado para o então técnico da base, e afirma que o São Paulo formou em 2020 o segundo melhor elenco do Brasil, atrás apenas do Flamengo, e o mais forte do clube na década.

Lugano também admite decepção com Gonzalo Carneiro, contratação indicada por ele, opina a respeito de Hernán Crespo e diz que sai com imagem “arranhada” pela falta de títulos. A entrevista foi feita no dia 18 de fevereiro, antes do jogo entre São Paulo e Palmeiras, empatado por 1 a 1.

Raí e Lugano no jogo do São Paulo contra o Binacional, em Juliaca — Foto: São Paulo FC / divulgação

Raí e Lugano no jogo do São Paulo contra o Binacional, em Juliaca — Foto: São Paulo FC / divulgação

ge: Como surge o convite para você virar dirigente do São Paulo?

Lugano: Os últimos meses do ano de 2017 foram muito complicados, talvez o mais complicado na minha vida esportiva, com São Paulo brigando contra o rebaixamento. Obviamente que eu com minha personalidade, por ter uma influência muito grande dentro do São Paulo para sustentar aquilo, imagino que por isso recebi o convite do Vinicius Pinotti (então diretor de futebol) para ficar no São Paulo como jogador ou dirigente. Depois me aposentei e o Leco me oficializou como diretor. Imagino para aproveitar um pouco a experiência, sensibilidade dentro do São Paulo que havia ficado muito mais fina e intensa nos últimos meses.

Na conversa, qual foi a função combinada para você fazer?

– Na verdade, o Vinicius queria realmente que eu ficasse 100% controlando e assistindo futebol como um diretor esportivo, mas falei que era muito recente minha saída como jogador. Tinha um vínculo muito intenso com jogadores e funcionários do CT. Não seria um cara objetivo para tomar decisões nessa posição, quando tem um relacionamento tão íntimo. Dividimos meses intensos e a relação fica ainda mais forte. Obviamente aproveitando meu conhecimento, sempre fui capitão, me envolvi em muitas coisas extracampo no Uruguai, no São Paulo e conheço muito de futebol internacional. Decidimos fazer uma função mais institucional, com meu vinculo na Conmebol e a nível internacional, meu conhecimento do São Paulo como um todo. Isso é um mundo.

Entre a teoria e a prática foi do jeito que você imaginava?

– Sim, tive muita liberdade de agir para fazer meus projetos dentro do clube, coisas na Europa, na Conmebol e participar em diferentes áreas no São Paulo. Nas vezes em que fui mais ativo no CT, por necessidade ou por pedido mesmo, foi onde comecei a ter um pouquinho de dificuldade dessa transição jogador-diretor. Porque como jogador, ou eu no vestiário, estava acostumado muitas vezes por influência, carisma, imposição e argumentos a fazer o que eu entendia que era melhor. No vestiário que é mais igual se destaca quem tem mais influência.

– Já como diretor na escala hierárquica de qualquer instituição, de qualquer estrutura, eu tive de me adaptar a ter uma opinião, mas não a decisão, que é tudo ao contrário do que aconteceu comigo em 15 anos de vestiário. Isso acaba influenciando em tudo. Tinha acontecido, por exemplo, quando ainda era jogador do São Paulo. Não jogava tanto, mas governava tudo o que era o vestiário e por consequência o que acontecia no clube. Então essa talvez foi a maior dificuldade nessa transição, essa escala hierárquica que tem de respeitar.

Você queria fazer mais e não podia?

– Não. O fato de simplesmente o que você pensa não se faz. No vestiário não funcionava assim. Enfim, tentei me adaptar a isso. Talvez foi o que mais sofri, essa ansiedade na transição para jogador.

Ansiedade de quê?

– De querer fazer mais coisas, impor minha maneira de pensar e de ver futebol. Obviamente o São Paulo é um clube muito grande e muito particular. Eu também tinha que aprender muito como funciona politicamente essa instituição. É um universo muito grande. Eu como jogador não via muito como funcionava. Como diretor tive a precaução de aprender aos poucos, ainda que não me interessava, mas tive a obrigação de aprender e ver que cada decisão tem sempre uma consequência ou influência política.

– São coisas que tive de ir aprendendo. Por isso também não quis ter um protagonismo maior, também porque não entendia, e mesmo depois de três anos não entendo ainda muito bem o universo político do São Paulo. Funciona como um parlamento no meu país, por exemplo. Cada decisão tem por trás opiniões, pressões.

Conselho Deliberativo do São Paulo no Morumbi — Foto: Marcos Ribolli

Conselho Deliberativo do São Paulo no Morumbi — Foto: Marcos Ribolli

Essa política atrapalha ou ajuda?

– O São Paulo sempre foi assim e assim conquistou muita coisa. Então é difícil falar que atrapalha. Obviamente que às vezes o excesso de rivalidade interna pode prejudicar um pouquinho. Talvez o mundo de hoje exija um tipo de condução e gestão mais vertical, mas o São Paulo sempre foi assim. Têm pessoas com muita história aqui dentro, que se sentem com autoridade para também ajudar nesse constante equilíbrio que esse universo muito particular se sustenta.

O que há de tão particular nesse “universo São Paulo”?

– O Morumbi é um mundo diferente da Barra Funda. Tem muita gente, diretores, conselheiros, sócios e torcedores que são parte do clube, que por estatuto tem oportunidade de escolher o destino do São Paulo. Que opinam, tem voz, um voto. Que tem autoridade também no São Paulo. Muitas vezes isso contrasta com o mundo da Barra Funda, um pouco mais fechado, mais voltado 100% ao futebol mesmo. Os dois têm que conviver em permanente equilíbrio e harmonia, e nem sempre é assim.

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