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Opinião Jogo Aberto – 31 de Março de 2020

A febre da cabana.

Para além do número de infectados e mortos, da profunda crise econômica, do desabastecimento, do desemprego e da fome, pandemias como a do coronavírus podem ter consequências psicossociais imprevisíveis. Refiro-me às indispensáveis medidas de distanciamento físico e isolamento das pessoas em seus domicílios como forma de evitar a disseminação do vírus.

É como se a vida parasse de repente e, numa hipótese pessimista, nem sequer pudéssemos ter acesso aos meios de comunicação, caso seus operadores se vissem obrigados a se recolher. No limite, teríamos indústria, comércio e serviços completamente parados, vale dizer, total ausência de vida social e, possivelmente, um caminho aberto para a criminalidade.

Aliás, o cenário de boa parte das grandes e efervescentes metrópoles mundiais já é desolador e nos lembra filmes de ficção científica.

Confinados em suas casas, povos naturalmente alegres como os italianos vão às janelas e varandas para cantar e fazer a festa – por enquanto. Povos mais introspectivos talvez se sintam resignados. Todos, no entanto, viverão eventuais brigas familiares, separações, depressão, enlouquecimento, assassinatos e suicídios caso o isolamento se arraste por tempo indeterminado, fenômeno conhecido nos países com inverno rigoroso como “cabin fever”, ou febre da cabana.

Apelos à solidariedade humana, seja para se evitar que um portador do vírus contamine outras pessoas, seja para ajudar a quem necessita de cuidados, dificilmente serão ouvidos. Muitos portadores não sabem se têm o vírus, enquanto o isolamento impede movimentos de ajuda a terceiros.

Em termos sociológicos, dependendo do tempo de duração, o isolamento, ao reduzir drasticamente as atividades produtivas, destrói as próprias bases da solidariedade social, isto é, as relações de mercado e a interdependência funcional dos indivíduos promovida pela divisão do trabalho. É cada um por si ou, no máximo, pela própria família nuclear. É isso que explica a corrida a farmácias e supermercados, que veem suas prateleiras vazias e sem perspectivas de reposição do estoque de produtos essenciais.

Índia, Alemanha e França já proibiram a exportação de máscaras e luvas. Governos ditos nacionalistas se incumbem de promover o isolacionismo em termos internacionais, quando a ajuda mútua se torna mais desesperadamente necessária. Sintomas disso são os bordões conservadores tipo “America first” e “Brasil acima de tudo”.

À exceção da estreita colaboração entre cientistas e entidades de pesquisa internacionais que correm contra o tempo em busca de vacinas e medicamentos para estancar a atual pandemia, não há muito o que esperar da solidariedade entre povos ou pessoas. Salve-se quem puder.

Por Marco Aurélio

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