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Economia

Em área pernambucana, sobra emprego e falta regularização trabalhista

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Parece uma grande avenida de São Paulo antes da Lei da Cidade Limpa, de 2007. Grandes outdoors anunciando jeans, roupas de praias e vestidos dão as boas vindas a quem chega à região de Santa Cruz do Capibaribe, no agreste pernambucano.

As fotos de modelos com aquelas caras blasé pipocam nesta cidade de 110 mil habitantes a 45 km de Caruaru, capital de um pólo de confecção que reúne 54 municípios. Lojistas locais dizem que a região responde por cerca de 20% da produção de vestuário nacional.

Em Santa Cruz, Jair Bolsonaro venceu nos dois turnos a eleição presidencial, única cidade pernambucana em que isso ocorreu (teve 54% na etapa final). O município se orgulha de ter o DNA do empreendedorismo e segue à risca o mantra do governo de “menos direitos, mais empregos”.

Na verdade, até radicalizou esse slogan, que poderia muito bem ser “nenhum direito, pleno emprego”. Paulo Guedes faria bem em dar um pulinho lá para ver os efeitos práticos (e colaterais) da revolução na legislação trabalhista que defende. Em Santa Cruz e na vizinha Toritama (40 mil moradores), ela já vigora há muito tempo.

“Aqui é a revolução industrial, meu amigo”, foi logo dizendo Adilson Vitorino, 28, do grupo Direita Pernambuco, ao encontrar o repórter num restaurante de Santa Cruz no último dia 13.

Dono de um “food bike” que vende tapioca, ele preside o núcleo local do grupo Direita Pernambuco e foi um dos principais responsáveis por organizar carreatas e atos pró-Bolsonaro na reta final da campanha. Num deles, reuniu 20 mil pessoas, 20% da população da cidade.

“No dia do atentado contra Bolsonaro, eu decidi fechar meu food bike e caí pra dentro da campanha. Avisei minha mulher que só voltava a trabalhar depois que ele fosse eleito”, diz Vitorino.

De certa forma, ele estava pregando para convertidos. O capitalismo radical de Santa Cruz e o discurso antiestatista de Bolsonaro (mais de Guedes, na verdade) se atraíram fortemente.

A reportagem não encontrou estatísticas confiáveis, mas todo mundo com quem conversou na região diz a mesma coisa: só não trabalha quem não quer.

Todos os dias, milhares de moradores das cidades que orbitam Santa Cruz se dedicam à confecção em fabriquetas de fundo de quintal, muitas vezes em suas próprias casas. Elas são chamadas localmente de “facções”.

Com duas ou três máquinas ao custo médio de R$ 3.000 uma nova (metade se for uma usada em bom estado), já podem produzir. Algumas “facções” se dedicam a cortar tecido; outras, à costura, ao tingimento ou ao aprontamento (colocação de zíperes e bolsos), numa linha de montagem que realmente relembra os primórdios da industrialização na Inglaterra do século 18, na imagem usada por Vitorino.

Algumas dessas fabriquetas são basicamente núcleos familiares, com marido e mulher trabalhando em casa por encomenda. Outras têm até 20 funcionários, todos em jornadas de até 14 horas por dia, sem registro em carteira. Também não há recolhimento de impostos (o argumento é que o imposto já foi pago na compra do tecido).

Como disse o dono de uma dessas pequenas fábricas, “se a fiscalização aparecer por aqui, fecha a cidade toda”.

Como fazem uma atividade específica na linha de montagem, há um ganho de eficiência, e uma “facção” pode gerar até 400 peças por semana. Pela costura de uma calça jeans, por exemplo, ganha-se de R$ 1 a R$ 1,20, pago pelo contratante do serviço.

Toda segunda-feira, os pequenos fabricantes expõem seus produtos no Moda Center, um enorme pavilhão em Santa Cruz com capacidade para quase 10 mil boxes.

O lugar fica abarrotado. Lojistas de diversas partes do país vêm comprar calças, camisetas, roupas de banho, vestidos e lingerie.

Um dos boxes é de Pedro José da Silva, 65, um ex-lavrador que entrou no ramo da confecção há 20 anos. O tecido que ele compra vem de Recife, João Pessoa ou Salvador. Com o material em mãos, distribui entre fabriquetas que o cortam, costuram e finalizam. Trabalha com bermudas, calças jeans e camisetas polo e de tactel.

Ele vende por R$ 15 uma bermuda que será comercializada por R$ 25 ou R$ 30 em lojas populares Brasil afora. “Deus plantou a confecção nessa cidade, senão a gente ia estar isolado”, diz. “Na lavoura a gente planta só pra comer, não lucra nada”.

O polo remonta à década de 1960, quando agricultores que sofriam com a seca começaram a trazer retalhos de capitais do Nordeste e fazer produtos simples como panos e toalhas, que chamavam de “sulanca”. Há até um museu dedicado aos pioneiros. Com o tempo, a confecção foi se sofisticando.

Na cidade de Toritama, vizinha a Santa Cruz, a especialidade são as peças de jeans. Numa rua sem asfalto, um portão preto de correr se abre e revela um casebre com parede de blocos no fundo de um pátio. Lá moram Gilvan Fernandes, 36, e a mulher, Lucineide da Silva, com duas filhas de 4 e 14 anos.

No cômodo de entrada, eles têm sua “facção”, com sete máquinas de costura. Chegam a produzir 400 calças por semana. “A gente ganha na quantidade”, diz ele, que obtém uma renda de cerca de R$ 4.000 mensais. “Quero chegar a R$ 7.000”, afirma.

O trabalho começa às 8h e costuma passar das 22h. Com sonhos de crescer, o casal de evangélicos criou uma etiqueta para seus produtos, que batizou de Tirza, termo em hebraico que significa “prazer” e está no Antigo Testamento.

Eleitor de Bolsonaro, Gilvan quer que o Estado o deixe trabalhar. “Só espero que deixem a gente livre. O governo quando fala em incentivo dá com uma mão e tira mais ainda com a outra”, afirma.

Funcionário da Prefeitura de Toritama, Abimael Santos, 34, diz que a população da cidade “se sente sufocada” pelos impostos e pela legislação trabalhista. “A população daqui empreende. E quem empreende quer o livre mercado”, diz ele, que durante a campanha animou carreatas pró-Bolsonaro de cima de trios elétricos pela região.

O argumento mais ouvido pela reportagem em dois dias na região na semana passada é que um emprego com carteira assinada rende um salário mínimo. O trabalho informal numa confecção pode gerar o triplo disso por mês.

Mas esse capitalismo todo cobra um preço, e nem todos aguentam a sobrecarga de trabalho. Danielle Rodrigues, 30, trabalhou durante nove anos numa confecção, em jornadas de até 14 horas por dia. “O dinheiro é bom, mas você acaba se tornando escravo da máquina”, diz ela.

Decidiu sair, fez faculdade de administração e hoje é secretária na prefeitura de Toritama, com horário para entrar e sair e carteira de trabalho assinada. “Não tenho saudade daquela vida. Mas é uma garantia para um dia que precisar de trabalho”, afirma.

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