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OPINIÃO JOGO ABERTO – Quarta Feira (16/01)

O caráter hereditário da extrema pobreza Se concordarmos que a privação econômica contribui para a instabilidade dos laços familiares, devemos admitir, também, que certos comportamentos decorrentes dessa instabilidade tendem a se consolidar em áreas de concentração de famílias muito pobres, socialmente segregadas.

Se o jovem do sexo masculino procura nas gangues o apoio que não obteve na família, estas lhe impõem, em troca, comportamentos tais como o envolvimento em atividades criminosas e as conquistas sexuais como forma de afirmação perante os pares. Por sua vez, como a manifestação da pobreza persiste, para muitas moças a maternidade torna-se um rito de passagem para a vida adulta.

As famílias chefiadas por viúvas, mulheres separadas ou mães solteiras, nas nossas regiões metropolitanas, já ultrapassam a casa dos 50% das famílias pobres, isto é, aquelas com rendas inferiores a dois salários mínimos. Não é preciso muito esforço para concluir que tais famílias enfrentam condições particularmente adversas de sobrevivência, encontrando, por sua vez, maiores dificuldades de superação da pobreza, que, neste caso, tende a tornar-se hereditária.

Pouca atenção tem sido dada à violência cotidiana a que estão submetidas essas famílias dentro e fora de casa. Que sabemos nós, concretamente, sobre a incidência de abusos contra a mulher, a criança e outros problemas que os dados censitários nem sequer sugerem? Confinadas em favelas e periferias, onde a densidade populacional suprime qualquer privacidade, sujeitas a problemas de várias ordens e acuadas por níveis de violência absurdos, não se pode esperar que famílias muito pobres venham a cumprir com regularidade e eficácia tarefas tão básicas como proteger, aconselhar e garantir instrução a seus filhos.

Como prepará-los para o trabalho regular e o desempenho de tarefas mais qualificadas e bem-remuneradas? É ilusão pensar que surtos de crescimento econômico serão capazes de abolir a miséria e a desordem. Os estragos causados pelo capitalismo selvagem, pela corrupção e pela incompetência dos governantes na vida das famílias pobres são tão grandes que só crescimento econômico continuado e muita vontade política – a começar por garantir segurança e acesso à Justiça a essas famílias – serão capazes de remediar.

A rigor, o Brasil só poderá ingressar no Primeiro Mundo se souber aproveitar com rapidez e competência as estreitas possibilidades oferecidas por uma economia mundial em acelerado processo de transformação. Mas é preciso agir rápido para não mergulhar de vez no Quarto Mundo, onde a “população pobre está mudando de uma posição estrutural de exploração para uma posição estrutural de irrelevância” e onde a civilização, ali onde resta alguma, está sendo abolida. Como se pode ver, os esforços nesse sentido passam longe das preocupações com a cor da roupa de meninos e meninas.

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