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Opinião Jogo Aberto – 02 de Junho de 2020

Vidas negras importam.

Às escuras, a Casa Branca se tornou um refúgio para o presidente Donald Trump e sua família, levados a se esconder em um bunker subterrâneo. Não era uma ameaça terrorista, mas uma revolta popular comparável apenas à onda de protestos em reação ao assassinato do ativista Martin Luther King, em 1968.

A causa é a mesma: o racismo estrutural vigente no país, com casos frequentes de perseguições e assassinatos de afrodescendentes por quem deveria defender todo e qualquer cidadão. A onda de indignação contra a cultura da violência e do preconceito praticados pela polícia norte-americana teve seu estopim com a publicação de um vídeo que mostrava George Floyd, um homem negro, sendo brutalmente assassinado por asfixia, praticada por um policial branco, que prensou com o joelho seu pescoço contra o solo.

Ocorrido em Minneapolis, o episódio cobriu as ruas de indignação e alastrou os protestos por todo o país, em plena pandemia do coronavírus. Os líderes do movimento argumentam que não adianta ficar em casa: o número de mortes pela Covid-19 também reflete a desigualdade racial. O estudo “A Cor do Coronavírus”, do laboratório APM Research, mostra que a taxa de mortalidade pela doença nos Estados Unidos é entre negros é três vezes maior do que entre brancos.

A desigualdade é mais cruel em Estados como o Kansas, que registra um número sete vezes maior de negros entre os mortos pelo vírus.

Símbolo da grande rebelião, o negro George Floyd foi assassinado sob acusação de usar uma nota falsa. Basta assistir ao vídeo para notar o pano de fundo racial, estampado na expressão de sadismo do policial assassino.

Síndrome de país colonizado, o caso ganhou grande repercussão no Brasil, mais até que os milhares de casos semelhantes que acontecem cotidianamente por aqui. Em 2019, apenas a polícia do Rio de Janeiro matou quase o dobro do que toda a polícia dos Estados Unidos. E os mortos daqui também têm uma raça bem-definida. Segundo o Mapa da Violência, sete jovens são assassinados por hora no Brasil – 80% deles são negros.

Muitas dessas vidas são ceifadas pela ação policial.

No ano passado, os indicadores atingiram seu recorde, com 5.804 óbitos. Esse número faz da polícia brasileira a que mais mata no mundo. São as consequências da concepção em que foi instituída a segurança pública, baseada na lógica do inimigo interno, que prepara o policial para mirar suas armas para o corpo negro.

O relatório da CPI foi transformado no Projeto de Lei 2.438/2015, que instituiu o Plano Nacional de Enfrentamento do Homicídio de Jovens. Ele trata da violência do Estado e propõe que sejam instituídas perícias autônomas e independentes para analisar casos de mortes causadas por policiais. O objetivo central do plano é reduzir ao máximo o índice de homicídios a cada 100 mil habitantes, que atualmente está em 29 mortos.

O estado de medo que tomou conta da Casa Branca nessa rebelião, na luta contra as arbitrariedades que atentam contra a vida de negros e negras, é uma oportunidade para os Estados Unidos reverem o papel de sua polícia. Pois que sirva para reabrir o debate sobre o racismo institucional das forças policiais também no Brasil.

Por Marco Aurélio

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